Publicado por: . | 3 julho, 2007

Na Intimidade de Chico Xavier

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Ante o 5º aniversário de desencarnação de Chico Xavier, nossa mais expressiva homenagem é, sem dúvida, a compreensão de seus esforços e testemunhos em prol de nossa sincera adesão ao serviço redentor na Seara Espírita-Cristã. A carta abaixo em que o médium se identifica como Clié e chama carinhosamente Emmanuel de Nuel, é repositório de luz e amor, revelando o quanto a obra de Emmanuel e as renúncias silenciosas de Chico compunham a melodia sublime da Caridade, em louvor do Evangelho sentido e vivido por todos. Estudemo-la, com gratidão e reconhecimento ao inesquecível servidor de Jesus!

“CARTA DO CORAÇÃO PARA O CORAÇÃO”

Uberaba, 14 de novembro de 1962.

Querido Jo, Jesus nos abençoe.

Recebi sua carta querida de 6, junto às encomendas de nossa Iza e, de coração enternecido, reúno vocês dois em meu abraço do coração. Louvado seja Deus que nos concedeu um amor assim tão grande para vivermos juntos pelos laços sublimes da alma. Comecei a ler a sua mensagem abençoada e do “Curto Diário de Uma Saudade” até a última página de “A Viagem de Tissay”, senti essa alegria cariciosa e boa que conversa a sós com a gente, entre risos e lágrimas… Palavras para dizer a você a emoção que você me deu? Desisto de buscá-las. As palavras do mundo são assim como tijolos de construção humana. Podemos dar-lhes forma e beleza ao empilhá-los ou acomodá-los uns com os outros, mas não conseguimos transmitir-lhes o calor que sai do coração. Por isso, meu filho, tanto quanto um coração pode abençoar um outro coração, repito ao seu generoso espírito: “Filho de minhalma, Deus abençoe você, em todos os seus passos”.

Como é belo tudo o que você me diz! Sim, as palavras de Nuel, escritas pelas mãos de Clié, são as mesmas, ontem, hoje, sempre… É preciso trabalhar, sofrer pelo bem. Desculpar sempre qualquer espinho que nos venha a ferir e continuar servindo à felicidade de todos… Apagar o fogo das discórdias, estender o amparo aos que necessitem, ajudar, socorrer… Sim, amado Silvano, é como se as inesquecíveis palavras de Nuel também me percutissem os ouvidos constantemente: – “o maior privilégio dos discípulos de Jesus é sempre aquele de ajudar sem retribuição e de agir desinteressadamente em Seu Nome”… Prossigamos, pois, para a frente… Nenhuma felicidade surgirá maior para mim que a de saber que você continua firme e leal aos ensinamentos redentores que recebemos juntos. Louvado seja o Senhor!

O castelo em que você ouviu Nuel pela primeira vez, pelas mãos de Clié, está igualmente em minha lembrança! Que céus estrelados, querido Silvano, e que flores desabrochavam ali! Que cânticos cristalinos de aves e almas ali se entrelaçam às harmonias da Natureza, entretanto, o Senhor mandou que o meu barco fosse desamarrado pelas circunstâncias e tive de viajar também no rumo de outras terras… Aquele rio que você fixou tão bem, na tela em que aparecem os solares coroados de Sol, na paisagem verde e florida, estavam igualmente à minha espera, sem que eu soubesse ao tempo em que nos vimos pela primeira vez, nesta existência… Não perguntei ao Senhor porque motivo me mandava partir, mas creio que Ele queria que eu segurasse o microfone ou o papel a fim de que Nuel, que tanto O ama, dEle falasse a outras comunidades e a outras assembléias.

Desde então, compreendi que Nuel se propunha servi-lO em outros lugares… Passei a ver outros solos, outras regiões… Vi glebas secas, florestas, espinheirais… Chorei ao ver as árvores lascadas e os ninhos arrasados, tantos vi… Notei cipoais asfixiando plantações generosas, calhaus enormes impedindo o curso das fontes abençoadas… Nuel atento ao trabalho, me chamava ao dever… Era preciso trabalhar, trabalhar… Trouxe-me, bondoso, companheiros dedicados e maravilhosos de carinho e confiança, que aspiravam a ler as instruções de serviço em minha conduta e em meus gestos. E as sementeiras de Nuel continuaram… Às vezes, ao segurar o microfone ou o papel para ele, o nosso valoroso e infatigável semeador, se encontro um espelho à frente, observo como o tempo me assinalou!… As rugas do rosto me lembram as horas de apreensões, quando os serviços de Nuel surgem ameaçados e a calvície adiantada me faz sorrir pensando que muitos dos meus cabelos me abandonaram, cansados da tensão mental que lhes esfogueava as raízes… Mas, por dentro, amado Silvano, a visão da vida é de esperança e de profunda alegria… A mensagem é a mesma… Amar, sim… Trabalhar sempre… Sofrer pelo bem e sofrer pela verdade…

É uma felicidade poder abrir o coração para o seu e falar assim, com a intimidade desta carta… E assim faço, não só tentando responder, de algum modo, à sua missiva querida na pauta da ternura em que você a grafou, mas também, para dizer ao seu carinho que desejo ver você sempre o mesmo, sempre o irmão abnegado de todos, servindo, auxiliando, compreendendo, ajudando… e como o 62 está no termo, aproveito a ocasião para rogar a você me perdoe se algum gesto meu, nas tarefas deste ano, chegou a ferir-lhe o coração que aspiro a ver sempre valoroso e sempre feliz… O Natal está próximo… Nós que tanto amamos e reverenciamos, com respeitoso carinho, a Data do Senhor, ante o Natal, estamos mais que nunca sob a aura amorosa de Nuel, de nossa Castelã, de nossa Princesinha do Céu. Em nome deles, nossos amados instrutores, peço a você um presente… O presente de sua alegria. Diga-me que você ama a Deus e a vida e que está feliz. Se alguma atitude assumida por mim machucou você, na sua grandeza de coração, perdoe-me aquelas setenta vezes sete e continuemos fiéis ao nosso trabalho com Jesus.

Um dia, quando você respondia pelo nome de Silvano, embora pequenino você soube, como sempre, honrar o nome dEle, o Senhor… Silvano, em testemunho de fé viva, deixou o corpo ferido numa estrada, conchegando-se ao coração paterno que o amava… Não será justo que eu também aceite as circunstâncias, qualquer que elas sejam, para ser leal a Nuel, nas estradas do mundo? Se minha voz de criatura talvez fatigada pelo tempo do corpo físico algo falar desajeitadamente para defender a verdade, no serviço de Nuel, perdoe-me os modos, os envoltórios, as impropriedades e deficientes expressões… Às vezes, filho do meu coração, é preciso também sofrer pelas idéias e pelas realizações, deslocando o pensamento do nosso círculo mais íntimo para abranger o conjunto… Nessas horas dolorosas, grande é a luta, mas é preciso ser fiel, fiel às realidades que estão dentro de nós e que se ligam a todos os filhos de Deus e tutelados do Senhor… Isso, porém, amado Silvano, não impede a obra constante do amor puro que salva, regenera, levanta e ampara sempre…

Desculpe-me, ainda, se me refiro ao trabalho da verdade… É só para dizer a você que eu, que me sinto na condição de sua mãe pelo coração, mãe espiritual que tem a idade de quem o viu renascer, não mudou… É só para afirmar-lhe que desejo você tão fiel a Jesus hoje, quanto ontem, e tanto quanto será você fiel a Ele, amanhã… E se alguém disser a você que me transformei ou que pessoas e circunstâncias me teriam transformado, não acredite. Pense, no silêncio, que sua mãe tão pobre e tão devedora, vive carregada de obrigações, que ela deve trabalhar sem repouso, para que a obra de Nuel não esmoreça… Se alguém pronunciar palavras ofensivas ou aparentemente ofensivas em torno dela, por incapacidade de compreender-lhe a extensão dos compromissos e lutas, não a defenda. Ore. Oremos todos uns pelos outros. Deus sabe, filho meu, quantas dificuldades foi ela obrigada a atravessar, desde a infância, para que o trabalho de Nuel não parasse e nem fenecesse. Não gaste o tesouro das horas em defesa de quem maternalmente o ama tanto. Por muito que eu trabalhasse, e realmente nada tenho feito de mim, não estaria de minha parte, senão cumprindo um dever… Lembre-se de que sua mãe pelo coração está igualmente na viagem do mundo, carregando imperfeições, impedimentos, inibições… Se não pode estar freqüentemente com os filhos amados é que ela deve, antes de tudo, ligar-se às disciplinas que o Senhor lhe traçou por Nuel… Tantos filhos queridos tenho eu! Mas o Senhor quer que nos voltemos, agora, por algum tempo, para os filhos do Calvário que Ele nos legou… Não somente os órfãos de carinho e de pão, os deserdados do lar e os tristes do mundo, mas também os desesperados, os que perderam o apoio da crença, os que acumularam problemas e aflições sobre as próprias cabeças e os que, um dia, Lhe cercaram a cruz com o riso nos lábios e a noite no coração… É preciso amar a todos eles, estender-lhes os braços e o sentimento.

Não creia, também, amado Silvano, que alguém me obrigue às disciplinas necessárias. Nuel as propõe e eu as aceito. Estou, meu filho, embora com tanta madureza e velhice físicas, na posição de uma criança na escola ou de um animal em serviço. Sem as disciplinas, não conseguirei fazer o que devo fazer… Receba, meu filho, todas as considerações desta carta, por entendimento nosso, diante do Natal… Amemos e trabalhemos… O seu projeto de um encontro no Natal próximo é lindo, mas peço a você, à nossa Iza e ao nosso Bissoli, deixarmos essa alegria para outra ocasião… Acontece, filho meu, que a luta de 1962 ainda está fervilhando, principalmente em Belo Horizonte, onde opiniões contraditórias se digladiam… É preciso evitar a expansão de fogueiras. Pretendo ir a Pedro Leopoldo, tão somente por dois dias – dias 31 e 1º. Dia 2, estarei de volta ao trabalho. Se for lá para demorar-me mais tempo, começarão as manifestações pró e contra, no assunto que, a esta hora, já é para nós problema superado. Passarei, se Jesus permitir, as horas da passagem do 62 para 63, com os nossos queridos André, Luiza e todos os nossos do coração e, em seguida, a disciplina é retomar o serviço… Estamos com um livro em andamento e aproveitaremos a saída daqui, por alguns dias de dezembro a janeiro próximos, para trabalhar nele, se for esta a vontade de Deus.

Como vê, meu filho, estarei em Pedro Leopoldo, somente a 31 e 1º, fazendo força para lá chegar na tarde ou noite de 30 que será um domingo. Sinto remorsos de convidá-los a ir até lá para abraço assim tão rápido…Nosso Nuel é de opinião que eu evite demorar-me lá, mais que o tempo a que me refiro, a fim de não incentivarmos perturbações. Do nosso encontro em Uberaba, será excelente se você, Iza, Candinha, Verinha e nossos queridos puderem vir na próxima sexta, dia 23; assim, será possível, se Deus quiser, abraçar-nos durante as horas da manhã de 24, sábado. Assim digo, porque nas semanas vindouras, a partir de 30 deste mês, muitas caravanas de companheiros virão à nossa casa, conforme programa que nos tem enviado e seria difícil um encontro mais íntimo nosso, mesmo pela manhã.

Recebemos a valiosa cooperação destinada à nossa Sopa Fraterna e a contribuição generosa para os serviços de nossa Scheilla. Imensa alegria em todos. Pelo relatório incluso, você e Iza poderão ver que a nossa Sopa está funcionando diariamente, com exceção dos domingos. Louvado seja Deus! Jesus seja louvado! Aqui, se Deus quiser, Waldo e eu conversaremos com você sobre a nossa querida “Antologia” e demais livros e planos de trabalho em andamento. Permita Jesus possamos encontrar-nos aqui em 23 e 24. Abraços mil para Iza, Bissoli, Gonçalves, Ruy, Candinha, Verinha, Messias, Eurídice… Nosso Waldo e demais companheiros de nossas tarefas em Uberaba enviam a você e Iza carinhosas lembranças e eu peço ao seu coração querido receber todo o coração de quem não o esquece.

Chico
(Carta extraída do livro “Amor e Renúncia”, organizado por Nena Galves, edição do CEU – Centro Espírita União, São Paulo)

Esclarecimento sobre alguns nomes e citações contidos na carta de Chico a Joaquim Alves (Jo)
– Nuel: pseudônimo carinhoso que Chico deu a seu guia e orientador Emmanuel.
– Clié: pseudônimo que Chico se deu, para abordar, em poesia, saudade e consciência, seu trabalho na Doutrina Espírita.
– Silvano: referência à reencarnação de Joaquim Alves narrada no livro “Ave, Cristo!”.
– O Castelo citado e todas as belezas naturais que o cercavam é uma referência de Chico ao ambiente espiritual que ele via em sua cidade natal, Pedro Leopoldo, de onde ele um dia saiu, para atender ao trabalho do Mais Alto em outras regiões, conforme suas explicações na carta.
– Todos os nomes citados na missiva são companheiros ou familiares de Joaquim Alves, em São Paulo ou de Chico, nas regiões onde atuou – muitos deles já desencarnados.
(Notas da Redação)

 

“O ESPÍRITA MINEIRO” NÚMERO 297 MAIO/JUNHO – 2007 PÁGINA 7/8

Disponível em http://www.uembh.org.br/


Responses

  1. .

  2. Prezado Carlos, lendo a carinhosa carta de Chico a Joaquim Alves, ocorreu-me alerta-lo, pois no livro Chico, Dialogos e Recordações, certamente por equívoco da memória, o sr. Arnaldo identifica Silvano do livro Ave Cristo como o estimado fundador do Lar Fabiano de Cristo aqui em São Paulo, o sr. José Gonçalves Pereira.
    abç
    Marcelo

    • Caríssimo irmão Jesus sempre. Na última edição fizemos o pedido do ajuste, porém não foi feito. Em futura edição será feito com toda certeza. Sds agradecidas C Alberto


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