Publicado por: . | 11 outubro, 2017

A Reencarnação de Grandes Vultos – Allan Kardec

Muito se especula no Movimento Espírita sobre o possível retorno de personalidades famosas, para dar continuidade aos feitos realizados em suas jornadas terrenas.

Levantam-se hipóteses quanto a reencarnação de Allan Kardec, de Emmanuel e de outros Espíritos importantes, associando-os a diversas personalidades que também deixaram legados, ou ainda, espalham-se previsões sobre possíveis “missões” a serem desempenhadas no solo espetaculoso das fantasias mitológicas e salvacionistas.

Allan Kardec, O Preclaro Codificador da Doutrina Espírita, quando questionado sobre a “possível volta do Messias”  tratou do assunto na Revista Espírita de Março-1868, com sua pedagogia superior, apresentando o verdadeiro sentido do Messianato e a Regeneração da Humanidade.

Estudemos o texto, à luz da fé raciocinada, buscando acima de tudo combater a ignorância que insiste em obstar o progresso interior.

Ave, Cristo!

Carlos Alberto Braga Costa

***

Comentários Sobre os Messias do Espiritismo
(Ver o número de fevereiro de 1868) 

Tendo-nos sido dirigidas várias perguntas a respeito das comunicações sobre os messias, publicadas no último número da
Revista, julgamos dever completá-las por alguns desenvolvimentos, que farão compreender melhor o seu sentido e o seu alcance.
1 – Como a primeira dessas comunicações recomendasse guardar segredo até nova ordem, embora a mesma coisa fosse ensinada em diferentes regiões, se não quanto à forma e as circunstâncias de detalhes, ao menos pelo fundo da idéia, perguntaram-nos se os Espíritos, num consentimento geral, tinham reconhecido a urgência desta publicação, o que teria uma significação de certa gravidade.
A opinião da maioria dos Espíritos é um poderoso controle para o valor dos princípios da Doutrina, mas não exclui o do julgamento e da razão, cujo uso sério todos os Espíritos recomendam. Quando o ensino se generaliza espontaneamente  sobre uma questão, num determinado sentido, é indício certo de que essa questão chegou ao seu tempo; mas a oportunidade, no
caso de que se trata, não é uma questão de princípio e julgamos não dever esperar o conselho da maioria para esta publicação, já que a sua utilidade nos estava demonstrada. Seria puerilidade crer que, fazendo abnegação de nossa iniciativa, não obedecêssemos, como instrumento passivo, senão a um pensamento que se nos impunha.
A idéia da vinda de um ou de vários messias era mais ou menos geral, mas encarada sob pontos de vista mais ou menos
errôneos, por força das circunstâncias de detalhes, contidos em certas comunicações, e de uma assimilação demasiado literal, por parte de alguns, com as palavras do Evangelho sobre o mesmo assunto. Esses erros podiam ter inconvenientes materiais, cujos sintomas já se faziam sentir; importava, pois, não deixar que se propagassem. Eis por que julgamos útil dar a conhecer o
verdadeiro sentido no qual essa previsão era entendida pela maioria dos Espíritos, retificando, assim, pelo ensinamento geral, o que o ensino isolado podia ter de parcialmente defeituoso.
2 – Disseram que os messias do Espiritismo, vindo após a sua constituição, apenas secundário seria o seu papel, e se
perguntaram se este era bem o caráter dos messias. Aquele que Deus encarrega de uma missão pode vir utilmente quando o objeto de sua missão está realizado? Não seria como se o Cristo tivesse vindo depois do estabelecimento do Cristianismo, ou como se o arquiteto encarregado da construção de uma casa chegasse quando esta estivesse construída?
A revelação espírita deveria realizar-se em condições diferentes de suas irmãs mais velhas, porque as condições da
Humanidade não são as mesmas. Sem voltar ao que foi dito a respeito dos caracteres desta revelação, lembramos que em vez de
ser individual, ela devia ser coletiva e, ao mesmo tempo, produto do ensino dos Espíritos e do trabalho inteligente do homem; não devia ser localizada, mas fincar raízes simultaneamente em todos os pontos do globo. Esse trabalho se realiza sob a direção dos grandes Espíritos, que receberam missão de presidir à regeneração da Humanidade. Se não cooperam na obra como encarnados, nem por isso deixam de dirigir os trabalhos como Espíritos, como disso temos as provas. Seu papel de messias, portanto, não se apagou, pois que o realizam antes de sua encarnação e não é senão maior. 
Sua ação, como Espíritos, é mesmo mais eficaz, porque podem estendê-la a toda parte, ao passo que, como encarnados, é
necessariamente circunscrita. Hoje eles fazem, como Espíritos, o que o Cristo fazia como homem: ensinam, mas pelas mil vozes da mediunidade; a seguir virão fazer, como homens, o que o Cristo não pôde fazer: instalar sua doutrina.
A instalação de uma doutrina chamada a regenerar o mundo não pode ser obra de um dia, e a vida de um homem não bastaria para isto. Primeiro é preciso elaborar os princípios ou, se se quiser, confeccionar o instrumento; depois limpar o terreno dos
obstáculos e lançar os primeiros fundamentos. Que fariam esses Espíritos na Terra durante o trabalho, de certo modo material, de limpeza? Sua vida se consumiria nessa luta. Assim, eles virão mais utilmente quando a obra estiver elaborada e o terreno preparado; a eles, então, incumbirá pôr a última demão ao edifício e o consolidar; numa palavra, fazer frutificar a árvore que tiver sido plantada. Mas, enquanto esperam, não estão inativos: dirigem os trabalhadores. A encarnação não será, pois, senão uma fase de sua missão. Só o Espiritismo podia fazer compreender a cooperação dos Espíritos da erraticidade numa obra terrestre.
3 – Além disso, perguntaram se não seria para temer que o anúncio desses messias não tentassem alguns ambiciosos, que se atribuiriam pretensas missões, e realizariam esta predição: Haverá falsos cristos e falsos profetas? XXI de O Evangelho segundo o Espiritismo. Lendo esse capítulo, ver-se-á que o papel do falso cristo não é tão fácil quanto se poderia supor, porque aqui é o caso de dizer que o hábito não faz o monge. Em todos os tempos houve intrigantes que se quiseram fazer passar por aquilo que não eram; sem dúvida podem imitar a forma exterior, mas, quando se trata de justificar o fundo, sucede com eles o que se dá com o jumento vestido com pele de leão.
Diz o bom-senso que Deus não pode escolher seus messias entre os Espíritos vulgares, mas entre os que sabe capazes de realizar seus desígnios. O que pretendesse ter recebido tal favor deveria, então, justificá-lo pela eminência de suas capacidades e de
suas virtudes, e sua presunção seria o primeiro desmentido dado a essas mesmas virtudes. Que diriam de um versejador que se desse como o príncipe dos poetas? Dar-se por cristo ou messias seria dizer-se o homem mais virtuoso do Universo, e não se é virtuoso quando não se é modesto.
É verdade que a virtude é simulada pela hipocrisia; mas há uma coisa que desafia toda imitação: é o gênio, porque deve afirmar-se por obras positivas; quanto à virtude de fachada, é uma comédia que não se pode representar muito tempo sem se trair. Na
primeira linha das qualidades morais que distinguem o verdadeiro missionário de Deus, deve-se colocar a humildade sincera, o
devotamento sem limites e sem segundas intenções, o desinteresse material e moral absoluto, a abnegação da personalidade, virtudes pelas quais não brilham nem os ambiciosos, nem os charlatães, que, antes de tudo, buscam a glória ou o lucro. Podem ter inteligência e dela precisam para vencer pela intriga; mas não é essa inteligência que coloca o homem acima da Humanidade terrestre. Se o Cristo voltasse a encarnar na Terra, viria com todas as suas virtudes. Se, pois, alguém se desse por ele, deveria igualá-lo em tudo. Uma só qualidade de menos bastaria para desmascarar a impostura.

Assim como se reconhece a qualidade da árvore por seu fruto, o verdadeiro messias será reconhecido pela qualidade de
suas obras, e não por suas pretensões. Não são os que se proclamam, porque, talvez, eles próprios se ignorem; vários estarão
na Terra sem ter sido reconhecidos. É vendo o que terão sido e o que terão feito que os homens dirão, como disseram do Cristo:
Aquele devia ser um messias.
Há cem pedras-de-toque para reconhecer os messias e os profetas de contrabando. A definição do caráter dos que são verdadeiros é antes feita para desencorajar os contrafatores, do que para os excitar a representar um papel que não têm força para desempenhar, e só lhes acarretaria dissabores. É, ao mesmo tempo, dar aos que tentassem abusar os meios de evitar serem vítimas de sua velhacaria.
4 – Parece que algumas pessoas temeram que a qualificação de messias espalhasse sobre a Doutrina um verniz de
misticismo.
Para quem conhece a Doutrina, ela é, de ponta a outra, um protesto contra o misticismo, pois tende a reconduzir todas as
crenças para o terreno positivo das leis da Natureza. Mas, entre os que não a conhecem, há pessoas para as quais tudo o que sai da humanidade tangível é místico. Não temos que nos preocupar com a sua opinião.
A palavra messias é empregada pelo Espiritismo em sua acepção literal de mensageiro, enviado, abstração feita da idéia de
redenção e de mistério, particular aos cultos cristãos. O Espiritismo não tem que discutir esses dogmas, que não são de sua alçada; diz o sentido no qual emprega essa palavra, para evitar qualquer equívoco, deixando cada um crer conforme a sua consciência, que não procura perturbar.

Assim, para o Espiritismo, todo Espírito encarnado para cumprir uma missão especial junto à Humanidade é um messias, na acepção geral da palavra, isto é, um missionário ou enviado, com a diferença, entretanto, que o vocábulo messias implica
mais particularmente a idéia de uma missão direta da Divindade e, conseqüentemente, a da superioridade do Espírito e da importância da missão. Daí se segue que há uma distinção a fazer entre os messias propriamente ditos, e os Espíritos simples missionários. O que os distingue é que, para uns, a missão ainda é uma prova, porque podem falir, enquanto para os outros é um atributo de sua superioridade. Do ponto de vista da vida corporal, os messias entram na categoria das encarnações ordinárias de Espíritos, e a palavra não tem qualquer caráter de misticismo.
Todas as grandes épocas de renovação viram aparecer messias encarregados de dar impulso ao movimento regenerador e
o dirigir. Sendo a época atual uma das de maiores transformações da Humanidade, terá também os seus messias, que a presidem já como Espíritos, e terminarão sua missão como encarnados. Sua vinda não será marcada por nenhum prodígio, e Deus, para os tornar conhecidos, não perturbará a ordem das leis da Natureza.
Nenhum sinal extraordinário aparecerá no céu, nem na Terra, e não serão vistos descendo das nuvens, acompanhados por anjos.
Nascerão, viverão e morrerão como o comum dos homens, e sua morte não será anunciada ao mundo nem por terremotos, nem
pelo obscurecimento do Sol; nenhum sinal exterior os distinguirá, assim como o Cristo, em vida, não se distinguia dos outros homens.
Nada, pois, os assinalará à atenção pública, a não ser a grandeza de suas obras, a sublimidade de suas virtudes, e a parte ativa e fecunda que tomarão na fundação da nova ordem de coisas. A antiguidade pagã deles fez deuses; a História os colocará no Panteão dos grandes homens, dos homens de gênio, mas, sobretudo, entre os homens de bem, cuja memória será honrada pela posteridade.

Tais serão os messias do Espiritismo; grandes homens entre os homens, grandes Espíritos entre os Espíritos, marcarão sua passagem por prodígios da inteligência e da virtude, que atestam a verdadeira superioridade, muito mais que a produção de
efeitos materiais que qualquer um pode realizar. Este quadro um pouco prosaico talvez faça caírem algumas ilusões; mas é assim que as coisas se passarão, muito naturalmente, e os seus resultados não serão menos importantes por não serem rodeados das formas ideais e um tanto maravilhosas, com que certas imaginações se comprazem em os cercar.
Dissemos os messias porque, com efeito, as previsões dos Espíritos anunciam que haverá vários, o que nada tem de
admirável, segundo o sentido ligado a essa palavra, e em razão da grandeza da tarefa, pois que se trata, não do adiantamento de um povo ou de uma raça, mas da regeneração da Humanidade inteira.
Quantos serão? Uns dizem três, outros mais, outros menos, o que prova que a coisa está nos segredos de Deus. Um deles terá
supremacia? É ainda o que pouco importa, o que até seria perigoso saber antecipadamente.
A vinda do Messias, como fato geral, está anunciada, porque era útil que dela se estivesse prevenido; é uma garantia do
futuro e um motivo de tranqüilidade, mas as individualidades não devem revelar-se senão por seus atos. Se alguém deve abrigar a infância de um deles, o fará inconscientemente, como para o primeiro vindo; assisti-lo-á e o protegerá por pura caridade, sem a isto ser solicitado por um sentimento de orgulho, do qual talvez não pudesse defender-se, que mau grado seu resvalaria para o coração e lhe faria perder o fruto de sua ação. Seu devotamento talvez não fosse tão desinteressado moralmente quanto ele próprio o imaginasse.
Além disso, a segurança do predestinado exige que ele seja coberto por um véu impenetrável, porque ele terá seus Herodes. Ora, um segredo só é bem guardado quando ninguém o conhece. Portanto, ninguém deve conhecer sua família, nem o lugar
de seu nascimento, e os próprios Espíritos vulgares não sabem.
Nenhum anjo virá anunciar sua vinda à sua mãe, porque esta não deve fazer diferença entre ele e os outros filhos; magos não virão adorá-lo em seu berço e lhe oferecer ouro e incenso, porque ele não deve ser saudado senão quando tiver dado suas provas. Será protegido pelos invisíveis, encarregados de velar por ele, e conduzido à porta onde deverá bater, e o dono da casa não reconhecerá aquele que receberá em seu lar.
Falando do novo Messias, disse Jesus: “Se alguém vos disser: o Cristo está aqui, ou está ali, não vades lá, porque lá não
estará.” Deve-se, pois, desconfiar das falsas indicações que têm por fim ludibriar, com vistas a fazer procurá-lo onde ele não está. Uma vez que não é permitido aos Espíritos revelar o que deve ficar secreto, toda comunicação circunstanciada sobre este ponto deve ser tida por suspeita, ou como uma provação para quem a recebe.
Pouco importa, pois, o número dos messias; só Deus sabe o que é necessário. Mas o que é indubitável é que ao lado dos
messias propriamente ditos, Espíritos superiores, em número ilimitado, encarnar-se-ão, ou já estão encarnados, com missões
especiais, para os secundar. Surgirão em todas as classes, em todas as posições sociais, em todas as seitas e em todos os povos. Havêlos-á nas ciências, nas artes, na literatura, na política, nos chefes de estado, enfim por toda parte onde sua influência possa ser útil à difusão das idéias novas e às reformas que serão a sua conseqüência. A autoridade de sua palavra será maior ainda, porque fundada na estima e na consideração de que serão cercados.
Mas, interrogarão, nessa multidão de missionários de todas as categorias, como distinguir os messias? Que importa se os
distinguirmos ou não? Eles não vêm à Terra para aí se fazerem adorar, nem para receber as homenagens dos homens. Não trarão, pois,  nenhum sinal na fronte; mas, assim como pela obra se reconhece o artífice, dirão após a sua partida: Aquele que fez a maior quota de bem deve ser o maior.
Sendo o Espiritismo o principal elemento regenerador, importava que o instrumento estivesse pronto, quando vierem os
que dele devem servir-se. É o trabalho que se realiza neste momento, e que os precede de pouco; mas, antes, é preciso que a
grade tenha passado na terra para purgá-la das ervas parasitas que abafariam o bom grão.
É sobretudo o século vinte que verá florescerem os grandes apóstolos do Espiritismo, e que poderá ser chamado o
século dos messias. Então a antiga geração terá desaparecido e a nova estará em toda a sua pujança; a Humanidade, livre de suas convulsões e formada de elementos novos ou regenerados, entrará definitivamente e pacificamente na fase do progresso moral, que deve elevar a Terra na hierarquia dos mundos.


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