Publicado por: . | 27 outubro, 2017

A fera e as aspas – Tributo a Arnaldo Rocha


    Querido leitor desse desse blog, Jesus conosco. Tenho alegria de publicar o artigo “A fera e as aspas”, 1982,  de Aristides Neto, ou o nosso Ari, amigo de Arnaldo Rocha, residente em Brasília.                                                                                                                            Costumo brincar com Ari afirmando que ele conheceu Naldinho quando este tinha 60 anos, com todo vigor, e eu fiz amizade com um ancião de 80 primaveras de sabedoria.                                                                                                                                          Foram etapas distintas, no entanto, tanto eu como Ari tivemos a honra de ter sido amigos do mesmo Homem, com H maiúsculo. Com seu jeito de mineiro maroto, nos ensinou tanto que relembrá-lo revoluciona nossos sentimentos.                                                      Espero que ao ler esse artigo você tenha o prazer de conhecer mais um pouco do ex-marido de Meimei, amigo de Chico Xavier, e das passagens desses que formam a equipe dos Amigos para Sempre.                                                                                                           Ave, Cristo!                                                                                                                                                                                                              Carlos Alberto Braga Costa

                                                                                                     A fera e as aspas

 (tributo a Arnaldo Rocha) 01/12/1982  

    “Estultice, não se preocupe em desenvolver mediunidade — faça isso com a fraternidade”, dizia ele, abaixando o dedo até então em riste e na altura do nariz. A expressão era séria.  Mais tarde pude perceber que, quando assunto sério, expressão de sobriedade. Para brincar, apelava para o absurdo. E como recorria ao sobrenatural… Cuspindo, abria buraco no asfalto. Bafo de cebola no espelho, tombo para trás na certa!… A expressão facial dele, ao me sugerir roteiros de fraternidade, me causou um impacto leve e bom. Só com o correr do tempo é que fui criando minhocas na cabeça.

Tipo físico? Um metro e sessenta e sete, cabelo e bigode brancos, porte atlético: praticou muita natação quando jovem. Hoje com sessenta anos, anda por dia o que eu ando num mês…

Quando falava, não parava de andar pela sala. Para tudo tinha justificativa: a barriga era porque os clubes de Brasília não abrem bem cedinho — pessoal preguiçoso — e a natação ficou de lado. “Rude e áspero, não — franco e sincero…”, dizia, entre uma e outra penteada de bigode.

Pois é, aí é que vêm as minhocas.  A cada resposta ácida dele eu ia para casa e pensava no contrassenso. E remoía. E passava uma semana, cá comigo, inconformado.

Ele tinha o dom da boa palavra, fluente, fraterna… e estragava tudo no final. Estopim curto.  Sinceridade exacerbada. Acho que nem sempre a gente pode ser sincero.  O pior é que o grupo todo tentava justificar, os mais velhos principalmente. Releve, diziam, deixe de lado os defeitos. Pense só no que ele tem para oferecer de bom. Eu meditava — acho que esse pessoal tem é medo dele… medo daquele vozeirão, do olhar que desperta a consciência, do “jogar verde pra colher maduro”. Medo de levar lambada. Chegou a dizer certa feita a um amigo meu que andava desarticulado que só os animais dormem sem orar…

Agora, medo eu nunca tive. Apesar de tudo ele inspirava segurança, força, tinha um imenso potencial de auxiliar. Era teimoso, sim… como eu. Quando ele falava, falava, falava e perguntava se eu havia entendido, eu respondia impertinente: “ainda não fiz a pergunta!”. Às vezes entendia a pergunta ao contrário. Disse-me uma vez que eu estava borboleteando pela fé. Quando ele entendia erroneamente a dúvida, eu não me contentava enquanto ele não entendesse, mesmo que levasse uma semana. Eu me valia do telefone.

Quando ele me cutucava com vara curta, eu era humilde por fora: por dentro eu espumava. “A mesma mão que acaricia bate”, ele repetia.

Certa vez, cheguei em casa e desabafei como pude. Peguei o primeiro papel que encontrei — era a contracapa do livro que eu tinha à mão — e desci o malho. Botei tudo pra fora. Escrevi, escrevi e terminei assim: ainda bem que, segundo ele, os amigos espirituais lhe puxam a orelha de vez em quando.  Isso significa que não ratificam as manifestações de aspereza… o que é um alívio.

Mais tarde, passei a borracha em tudo. Tudo estava a lápis. Acho que todos os conceitos impregnados de indignação que fiz dele estavam sem caráter definitivo, sem muita consistência. Acho que também estavam a lápis na minha cabeça. Ao mesmo tempo em que o criticava, acho que eu o entronizava. O meio-termo é que seria o ideal, correspondência mais fácil com a expectativa. E a expectativa estava errada, erro comum a que incorremos sempre.

O vinho que tomamos lá em casa, acho que me ajudou a entender que as deficiências dele eram semelhantes às minhas.  Ele também achava tomar vinho uma fraqueza muito gostosa. Prestigiou o peixe ao molho branco como ninguém. Ajudou a tirar a mesa. E deitou-se no chão, mostrando o exercício para a coluna.

Tentou descer até o meu nível? Acho que não. Havia sinceridade. Já nessa época eu havia aprendido a valorizar a imensa capacidade dele em transmitir os ensinamentos cristãos, que se contrapunham aos pequenos deslizes. E toda a teoria que eu acumulara? Também não estava botando em prática. Ele conseguia quase se equiparar às minhas deficiências. Nas suas virtudes, percebi que eu não podia alcançá-lo.

Aí resolvi sufocar meus ímpetos. Quando dei por mim, com toda paciência, eu passava a explicar aos amigos que ocasionalmente levava às nossas reuniões — que às vezes arregalavam os olhos de espanto — que não era possível entendê-lo de supetão. E falava da minha experiência. Eu chegara a um ponto em que um por cento do que ele dizia eu rejeitava. Entrava por um ouvido, saía por outro. Os noventa e nove restantes, eu sorvia, ávido, tentando fixar ao máximo aquilo que de sublime fluía com naturalidade daquela alma nobre, naquela sala singela da Comunhão Espírita de Brasília.

Praticar o amor, o perdão, a caridade, eis a grande verdade. Toda a Doutrina gira em torno desses preceitos. Só que existem as várias maneiras de se falar sobre isso. Cada um com seu repertório, com sua dignidade, com seu acervo de conhecimentos, com a sua didática, com sua maior ou menor beleza interior. Ele era brilhante. Tudo que falou não era novo — a maneira como falou é que calou fundo.

“Trinta e seis anos de Doutrina”, dizia. Uns dezesseis com o Chico. “Santo homem, por aguentar esta besta aqui por tanto tempo”, acrescentava nos momentos de descontração, referindo ao querido médium Chico Xavier. Mas a “besta”, muitas e muitas vezes fez com que lágrimas rolassem durante suas preces, que nos transportava a regiões que não eram deste mundo.

Realmente, podia-se perceber que ele era inflexível às vezes, exigente para com quem dizia ter conhecimento da doutrina. Exigia mais desses. Com os leigos era didático, paciente, terno. Pensando bem, faz sentido, não faz? Muito será pedido a quem muito recebeu…

Com ele percebi que dizer a todo mundo que eu era espírita desde criança (fiz catecismo espírita — assim era chamado à época — e juventude espírita…) era um agravante e não um atenuante. Acho que só agora as aspas do espiritista (aspeado) que vos fala estão diminuindo de tamanho. Pois é, ele gostava de dividir os espíritas em duas classes distintas — os com e os sem aspas.

E assim foi. Dentre os quilômetros que ele percorreu pela sala simples da Comunhão (DF), falando e andando, falando e andando; dentre os quilômetros através da nossa Doutrina, indo, vindo, repassando; em meio aos garranchos que ele fazia no quadro (eu me esforçava, e como, para achar alguma correspondência entre os rabiscos e a ideia que ele queria ilustrar); dentre a ótica severa de abordagem, e ao mesmo tempo realista; em meio a citações tiradas daqueles amarelados livros primeira-edição com a dedicatória do Chico; em meio às nossas conversas ao telefone (eu as preferia, ele ouvia mais, deixava a gente falar); em meio a essas e outras aprendi muita coisa. Modifiquei conceitos. Autoavaliei-me muito.

Aprendi a extrair da fenomenologia espírita, que tanto empolga a tantos, o que há de mais importante nela, e que deveria nortear o  entendimento de todo espírita — do intercâmbio espiritual advém as mais belas lições, de que os espíritos são gente como a gente, com suas dores, suas fixações mentais, com sentimentos, com coisa para dar, com carência afetiva.  Só que muitos deles em processo de padecer o período de adaptação, desarmados, perdidos, sozinhos, assustados, no reencontro com a própria consciência. E ele os recebia com carinho indescritível; com estes não faltava com a paciência. Só pedia: “Carinho, minha gente, é um caso doloroso, pelo amor de Deus, um pai-nosso…”.

Termos muito técnicos, quando se tratava da parte científica da Doutrina Espírita, ele não admitia. “Não se esqueçam de que a sala é heterogênea; e existem mais desencarnados que encarnados; vamos respeitar as deficiências e as dores alheias”, acrescentava. Mas a linguagem dele era quase escorreita, termo que usava com frequência. Ótima fluência verbal. Pulcritude, essa palavra também me reporta a ele.

Para ilustrar influenciação, ele fazia um movimento com a mão esquerda e outro com a direita, ortogonalmente opostos, que eu nunca consegui fazer…

E tudo isso complementa a sua imagem marcante. Só agora me apercebi — falei todo o tempo dele no pretérito, como se tivesse partido…

Realmente partiu. Mas para Belo Horizonte. O mineiro Arnaldo Rocha, do peito pelado, igual ao do Zé Grosso, da voz amplificada, figura inesquecível, retornou às origens.

Deve estar do mesmo jeito — escravo dos seus doces, como todo bom mineiro, derretendo em baixo do chuveiro, sentado na cadeirinha de madeira, ora vejam, curtindo dona Neusa,  Moyra, os netinhos, penteando o bigode prateado, enquanto Meimei (Espírito) cochicha no seu ouvido, construindo e auxiliando sempre, com ternura ou lambadas. Só que as lambadas, eu sei, são daquelas de pai para filho.

Arnaldo Rocha é espírita sem aspas. E “fera”, rodeada de aspas. Por ele sinto saudades e aqui externo a mais profunda gratidão.

Aristides Coelho Neto

Brasília, dez. 1982

 

 

 

 

 

 


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