Publicado por: . | 2 novembro, 2017

Lamentos do órfão – Poesia do Além Túmulo

Minha mãezinha, alguém me disse,
Que tu te foste, triste sem mim;
Já não me embala tua meiguice,
E não podias partir assim. 

Eu acredito que tenhas ido
Pedir a Deus, que possui a luz,
Que de mim faça, do teu querido,
Um dos seus anjos, outro Jesus.

Mas tanto tempo faz que partiste,
Que me fugiste sem me levar,
Que sofro e choro, saudoso e triste,
Sem esperanças de te encontrar.

Há quantos dias que te procuro,
Que te procuro chamando em vão!…
Tudo é silêncio tristonho e escuro,
Tudo é saudade no coração.

Outros meninos alegres vejo,
Numa alegria terna e louçã,
Que exclamam rindo dentro dum beijo:
“Como eu te adoro, minha mamã!”

Sinto um anseio sublime e santo,
De nos meus braços, mãe, te beijar;
E abraço o espaço, beijo o meu pranto,
Somente a mágoa vem-me afagar.

Inquiro o vento: — “Quando verei
Minha mãezinha boa e querida?”
E o vento triste diz-me: — “Não sei! …
Só noutra vida, só noutra vida!…”

Pergunto à fonte, pergunto à ave,
Quando regressas dos Céus supremos,
E me respondem em voz suave:
“Nós não sabemos! nós não sabemos!…”

Pergunto à flor que engalana a aurora,
Quando é que voltas desse país,
E ela retruca, consoladora:
“Depois da morte serás feliz.”

E digo ao sino na tarde calma:
“Onde está ela, meu doce bem?”
Ele responde, grave, à minhalma:
“Além na luz! Na luz do Além!.. .“

O mar e a noite me crucificam,
Multiplicando meus pobres ais,
Cheios de angústias, ambos replicam:
“Tua mãezinha não volta mais.”

Somente a nuvem, quando eu imploro,
Diz-me que vens e diz que te vê;
E me conforta, do céu, se eu choro:
“Eu vou chamá-la para você.”

Sempre te espero, mas, ai! não voltas,
Nem para dar-me consolação;
Ó mãe querida, que mágoas soltas
Andam cortando meu coração.

Tanta saudade, e, no entretanto,
Vejo-te linda nos sonhos meus;
Ajoelhada, banhada em pranto,
E de mãos postas aos pés de Deus.

Sempre a meus olhos, estás bonita
Qual uma rosa, como um jasmim!
Porém conheço que estás aflita,
Com o pensamento junto de mim.

Então, entrego-me ao meu desejo, 

Tremo de anseio, calo, sorrio,
Sentindo o anélito do teu beijo…
Mas abro os olhos no ar vazio!

Vai-se-me o sonho… Quanta amargura,
Que sinto esparsa pelo caminho!
Que mágoa eterna! que desventura,
Para quem segue triste e sozinho.

Volta depressa! guardo-te flores,
Porque só vivo pensando em ti:
Celebraremos nossos amores,
Junto da fonte que canta e ri.

Já não suporto tantos cansaços!…
Se não voltares, pede a Jesus
Que te conceda pôr-me em teus braços,
Foge comigo para outra luz!…

João de Deus – Psicografia de F. C. Xavier. Parnaso do Além Túmulo

 

João de Deus. NASCIDO em São Bartolomeu de Messines, Portugal, em 1830, e desencarnado em 1896, afirmou-se
um dos maiores líricos da língua portuguesa. É tão bem conhecido no Brasil quanto em seu belo país. Nestas poesias palpita, de modo inconfundível, a suavidade e o ritmo da sua lira.


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