Publicado por: . | 22 maio, 2018

Divulgando O Espiritismo, ou o interesse pessoal?

 

Diante do progresso tecnológico e da velocidade com que se propagam as informações, torna-se empolgante ver o crescimento da divulgação do Espiritismo, atingindo índices inimagináveis.

Um dos exemplos bem sucedidos é o trabalho realizado pela equipe da RAE – “Rede Amigo Espírita”. São milhões de acessos nas diversas plataformas de divulgação, centenas de milhares de seguidores que encontram conteúdo sério e qualificado para atender, gratuitamente, às mais variadas demandas. Chamamos atenção para um fato marcante. O conteúdo de vídeos, artigos e mensagens são produzidos pela equipe da RAE, no entanto, o percentual maior é preparado pelos trabalhadores do Espiritismo que militam em diversas partes do planeta.

Trabalho feito pelo povo, portanto, para o povo, conforme apregoa Jesus em Seu Evangelho. “Voltarei para vós e permanecerei para sempre.” [1]

Exaltamos o caráter desinteressado do seu idealizador e coordenador, bem como da equipe que trabalha em satisfatória harmonia e eficiência.  Com simplicidade e abertura democrática, assim caminha a “Rede Amigo Espírita” na direção do que se propôs, bem antes dos integrantes reencarnarem.

A qualidade e eficácia, rapidez e objetividade da divulgação foi prenunciada por nosso Mestre Jesus, na Profecia das profecias:

O que digo a vocês na escuridão, repitam à luz do dia, e o que vocês escutam em segredo, proclamem sobre os telhados”. [2]

Sem a pretensão de aprofundar na análise espiritual, podemos direcionar o tema para a divulgação do Espiritismo através de rádio, TV e satélites, transitando das antigas antenas às inovadoras parabólicas, passando pelos transmissores de alta tecnologia e culminando, com a internet, nas bibliotecas virtuais. 

Por certo, daqui a alguns anos, o conceito vai mudar. No entanto, é inegável que os tempos prenunciados pelo Divino Amigo chegaram disponibilizando ferramentas fantásticas para compartilhar conteúdos que tocam os mais incrédulos e incidem nos mais renitentes ao progresso.

Allan Kardec, O Codificador do Espiritismo, o Precursor das Felicidades Celestiais, na visão do Espírito Erasto, ansiava por ver o Espiritismo vencendo as barreiras provincianas e temporais para combater o materialismo, impulsionado pelo progresso da imprensa.

Vejamos o que afirmara o Mestre de Lyon:

O materialismo é um dos vícios da sociedade atual, porque engendra o egoísmo. O que há, com efeito, fora do eu, para quem tudo liga à matéria e à vida presente? Intimamente vinculada às ideias religiosas, esclarecendo-nos sobre nossa natureza, a Doutrina Espírita mostra-nos a felicidade na prática das virtudes evangélicas; lembra ao homem os seus deveres para com Deus, a sociedade, e para consigo mesmo. Colaborar na sua propagação é desferir um golpe mortal na chaga do cepticismo que nos invade como um mal contagioso; honra, pois, aos que empregam nessa obra os bens com que Deus os favoreceu na Terra!” [3]

Sobre o poder da divulgação, utilizando as ferramentas da comunicação, assim pensava o Codificador:

Dizendo que o Espiritismo propagou-se sem o apoio da imprensa, queríamos nos referir à imprensa geral, que se dirige a todos, àquela cuja voz impressiona diariamente milhões de ouvidos, que penetra nos mais obscuros recantos; àquela que permite ao anacoreta, na solidão do deserto, estar tão perfeitamente a par do que se passa no mundo quanto os habitantes das cidades; enfim, da que semeia ideias a mancheias. Que jornal espírita pode vangloriar-se  de fazer ressoar os ecos do mundo? Fala às pessoas que têm convicção; não atrai a atenção dos indiferentes. Falamos, pois, a verdade, quando dizemos que o Espiritismo foi entregue às próprias forças; se, por si mesmo, já deu tão grandes passos, que será quando dispuser da poderosa alavanca da grande publicidade! Enquanto aguarda esse momento, vai plantando balizas por toda parte; seus ramos acharão pontos de apoio em todos os lugares e, finalmente, em toda parte encontrará vozes cuja autoridade imporá silêncio aos detratores. [4]

Vivemos esse tempo, assistindo a Humanidade dar passos decisivos rumo a uma Nova Era, na qual veremos também a Doutrina Espírita alcançar mentes e corações através de uma alavanca poderosa de publicidade.

Lidamos nesse mister da divulgação do Espiritismo há 30 anos, em diversos departamentos do Movimento Espírita, o que nos motiva a rascunhar esta despretensiosa reflexão, diante do espetáculo da evolução.

Erros, acertos, sonhos, realizações, alegrias, decepções, coerências, deturpações, facilidades, dificuldades; o aprendizado marca o livro da vida de todos que encantados somos pelo Espiritismo. Saímos da zona de conforto para dividir ideais e luzes. Nessa caminhada, o andarilho se inspira na análise crítica construtiva.

No momento atual, marcado pela alucinação psicológica, encontramos no Movimento Espírita algumas escolhas complexas e seus frutos monstruosos. Resultado de ações isoladas, que acabam por fomentar desvios e perversões, em sintonia com interesses das trevas que visam impedir e deturpar a Obra do Consolador.

Filósofos e historiadores analisam os fatos para não repetir os mesmos erros, mas, na prática, verifica-se que a repetição dos equívocos faz parte da evolução, que ocorre por desatenção ou por imaturidade psicológica e moral. Eis a singela explicação das incoerências que cometemos dentro do Movimento Espírita.

Em se tratando de divulgação, relembramos uma carta de Francisco Cândido Xavier, publicada no livro “Testemunho de Chico Xavier”, editado pela FEB, na qual o médium afirma que Emmanuel adverte “que a tarefa não é apenas de divulgação, mas de construção”. [5]

A palavra construção sugere muitas coisas, dentre elas, projeto, fase de elaboração e realização, etapas e metas a serem atingidas. Finalmente, PLANEJAMENTO.

Portanto, para divulgar precisamos muito mais do que, em tese, “conhecer” o Espiritismo, ter equipamento, internet, pessoas com boa vontade. Devemos analisar o que divulgar, o objetivo a ser alcançado e como fazê-lo e, acima de tudo, ter comprometimento com a Doutrina Espírita.

Sem dúvida, é imperioso ter preparo técnico e algum investimento. No entanto, o que deve preponderar é a essência moral, tanto na forma como na essência em se tratando da divulgação.

Nesse mister, a lógica aponta para a necessidade de discutirmos a importância da comunicação espírita, em tempos de muitas mudanças, para não nos perdermos com resultados transitórios e materiais das empreitas.

Intencionamos enfatizar o desinteresse dos trabalhadores e nos comprometer com a autoridade que o trabalho implica. Precisamos estar abalizados pelos Benfeitores Espirituais, e para tal, a conduta do médium/trabalhador é importante e imperiosamente intransferível.

Allan Kardec, em diversos textos contidos nos livros fundamentais e na Revista Espírita, enaltece o valor do desinteresse. Vejamos uma mensagem publicada na Revista Espírita 1860, assinada pelo Espírito de Verdade, na qual encontramos uma séria advertência para os responsáveis na divulgação do Espiritismo:

“(…) Fostes escolhidos para serdes o espelho que deve receber e refletir a luz divina, que deve iluminar a Terra, até então mergulhada nas trevas da ignorância e da mentira. Mas se não estiverdes animados pelo amor do próximo e por um desinteresse sem limites; se o desejo de conhecer e propagar a verdade, cujas vias deveis abrir à posteridade, não for o único móvel a guiar os vossos trabalhos; se o mais leve pensamento íntimo de orgulho, egoísmo e interesse material achar lugar em vossos corações, não nos serviremos de vós senão como o artífice, que provisoriamente emprega uma ferramenta defeituosa; viremos a vós até que tenhamos encontrado ou provocado um centro mais rico do que vós em virtudes, mais simpático à falange de Espíritos que Deus enviou para revelar a verdade aos homens de boa vontade. Pensai nisto seriamente; descei aos vossos corações, sondai-lhes os mais íntimos refolhos e expulsai com energia as más paixões que nos afastam. A não ser assim retirai-vos, antes de comprometerdes os trabalhos de vossos irmãos pela vossa presença, ou a dos Espíritos que traríeis convosco.

   O Espírito de Verdade” [6]

Estudando a biografia de Allan Kardec, constata-se que ele seguiu essa norma. Dedicou DESINTERESSADAMENTE ao trabalho e jamais auferiu qualquer moeda ou vantagem pelo seu encargo MISSIONÁRIO.

Por isso, a erva daninha do “interesse pessoal” deve ser vigiada com muita atenção, pois cresce sutil e irreverente, trazendo furúnculos que deterioram inapelavelmente a essência doutrinária a ser veiculada.

Encontramos na Internet absurdas cobranças pecuniárias bem maquinadas para acesso a palestras, vendas de conteúdo “doutrinário” duvidoso, portais que clamam pela presença de neófitos, que assustam até os materialistas com pagamentos de mensalidades, contrapondo o ensino de “dar de graça o que de graça…” Tudo isso para alimentar a indústria disfarçada de religião, alimentando pseudo ídolos que, sentados na cadeira de supostos missionários, iludem tanto quanto são embriagados com o licor de uma fingida superioridade moral, embora erigida e autorizada por indigentes fãs clubes, se comparados aos tempos da beatlemania.

Em cada época seus modismos. Sempre efêmeros, na verdade.

Vejamos as “pílulas” em áudio e vídeo que invadem as redes sociais em nome da Doutrina Espírita, não atendendo nem às propostas ditas “espiritualistas”. Encantam os apressados, sem nada ensinar. Recortes do superficial. Agem sutilmente para aumentar a galeria dos famosos plagiadores, que vez por outra até citam de onde buscaram. No entanto, na maioria das vezes, usando do carisma, que poderia fazer luz, preferem “revelar” a descoberta da roda. As pílulas psicotrópicas entoam o canto da sereia, para que o crente, apaixonado, depois de fisgado se torne adepto colaborador de uma seita falaciosa, que é engrinaldada pelo dístico de Espiritismo.

Na atualidade, às voltas com descobertas valiosas feitas por pesquisadores comprometidos com a CAUSA, devemos aprender com a história do Movimento Espírita que, desde a partida de Allan Kardec, viu surgir incautos que empreenderam sofisticada peregrinação na senda duvidosa.  Chegaram trazendo cizânia e desvio, tanto pelo vil comércio como pela indústria das doações, arrecadações de fontes complicadas em nome dos privilégios para “chefes” e “sacerdotes”, inserção de polêmicas e assuntos que contradizem os fundamentos doutrinários, e outros temas que entediam até o mais paciente purista.

E o que pensar da propalada divulgação através de seminários, congressos, workshops? Temos material para escrever compêndios sobre o tema. Há belos eventos, regados à simplicidade e de valor doutrinário considerável. No entanto, na grande maioria dos conclaves, o que se constata é o exclusivismo, o elitismo e a pirotecnia emocional. Quais os temas doutrinários que são discutidos, ou ações para qualificar o Movimento Espírita? Missa de corpo presente, tendo os mesmos sacerdotes conduzindo apresentações pessoais e o povo se revezando para dizer amém.  Há ainda uma novidade que nos remete aos comícios políticos: frases de efeito, aplausos frenéticos. Belas festas regadas ao frisson dos corredores de Versalhes. Espero que alguém nos mostre algo diferente do que o buraco negro do ufanismo. Para terminar, relembro do Congresso Espírita em Brasília, em abril de 2010, na comemoração do centenário de nascimento do Venerando médium Francisco Cândido Xavier. Pasmem! Vendas de medalhas de ouro com a face do santo Chico Xavier, com os preços variando entre 500,00 até 15.000,00. God Save the Queen!  Deus salve a Rainha!

 

Ufa! Ainda bem que já se passaram 8 anos, quase esquecemos. Espero que não façam o mesmo com o nosso amigo Divaldo Franco depois de desencarnar. Temos convicção de que o tribuno baiano não ficará nada satisfeito com a comercialização da sua imagem de santo de qualquer causa impossível.

Então, questionamos: Tudo isso tem alguma coisa a ver com os princípios do Espiritismo dos tempos de Allan Kardec? Seria esse tipo de divulgação que vislumbrava o nosso Mestre de Lyon, 150 anos após? Ou em nome da modernidade estamos nos afastando e disputando o campeonato do interesse pessoal?

A História do Espiritismo, no Brasil e em outras plagas, é farta de expoentes que foram leais, ao Codificador e à Doutrina Espírita. Então nos perguntamos: A despersonalização, o trabalho em equipe está perdendo a batalha cruel para o individualismo que se incendeia ao calor das vaidades portentosas?

Recordo do querido e saudoso Arnaldo Rocha, amigo de Chico Xavier, com a sua frase predileta: “A ilusão campeia em nosso meio, e o Sr. Allan Kardec continua um ilustre desconhecido”.

Como espíritas, devemos lutar contra todos os obstáculos que prejudicam a boa e nobre divulgação da Doutrina Espírita. Sem dúvida que essa luta começa em nós mesmos que, por consequência, redundará em exemplos na tarefa em comunidade espírita. Nada obstante, essa batalha só poderá ser travada se for aberto o debate, pois ninguém tem a verdade absoluta.

O momento é grave, e o chamamento é impostergável. Devemos bradar fraternalmente, conclamando a humildade do reconhecimento.

Não temos dúvida que nenhum espírita consciente dos seus deveres quer escorregar ou ver um desastre no salão da vida. Por isso, chega o tempo de recolher os cacos da taça da ilusão que se espatifa toda vez que perdemos o foco dos objetivos traçados. Quanto aos detritos da vaidade devemos recolhê-los para evitar cortes que exijam regeneração dolorosa.

Portanto, o momento é para resignificar!

Enfim, com Jesus e Allan Kardec, na divulgação, o roteiro se torna claro: vigilância e prudência; amor e perseverança; alegria e humildade; consolo e esperança; simplicidade e firmeza; fé e esperança; caridade e sintonia com os Benfeitores; desinteresse e honestidade para com a Doutrina Espírita.

Culminamos estas reflexões sob a inspiração das palavras do Espírito Emmanuel, que nos conclama a dignificar a Doutrina Espírita para que a Doutrina dos Mundos possa nos abençoar e libertar para a Glória do Infinito:

“Porque a Doutrina Espírita é em si a liberalidade e o entendimento, há quem julgue seja ela obrigada a misturar-se com todas as aventuras marginais e com todos os exotismos, sob pena de fugir aos impositivos da fraternidade que veicula. Dignifica, assim, a Doutrina que te consola e liberta, vigiando-lhe a pureza e a simplicidade, para que não colabores, sem perceber, nos vícios da ignorância e nos crimes do pensamento. “Espírita” deve ser o teu caráter, ainda mesmo te sintas em reajuste, depois da queda. “Espírita” deve ser a tua conduta, ainda mesmo que estejas em duras experiências. “Espírita” deve ser o nome de teu nome, ainda mesmo respires em aflitivos combates contigo mesmo. “Espírita” deve ser o claro adjetivo de tua instituição, ainda mesmo que, por isso, te faltem as passageiras subvenções e honrarias terrestres. Doutrina Espírita quer dizer Doutrina do Cristo. E a Doutrina do Cristo é a doutrina do aperfeiçoamento moral em todos os mundos. Guarda-a, pois, na existência, como sendo a tua responsabilidade mais alta, porque dia virá em que serás naturalmente convidado a prestar-lhe contas”.[7]

Ave, Cristo!

 

Carlos Alberto Braga Costa

betobragacosta@gmail.com

Belo Horizonte-MG

 

Referências bibliográficas:

[1]João 14:16

[2]Mateus 10:27

[3]KARDEC, Allan. Revista Espírita, janeiro de 1858, RJ: Ed. FEB, 2004

[4]KARDEC, Allan. Revista Espírita, janeiro de 1858, RJ: Ed. FEB, 2004

[5]SCHUBERT, Suely Caldas. Testemunhos de Chico Xavier, RJ: Ed  FEB, 1986

[6]KARDEC, Allan. Revista Espírita, janeiro de 1860, RJ: Ed. FEB, 2004

[7]Xavier, Francisco Cândido. Religião dos espíritos, ditado pelo Espírito Emmanuel, 22ª. edição, RJ: Ed FEB, 2012


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