Publicado por: . | 6 agosto, 2018

Mãos Enferrujadas

mãosQuando Joaquim Sucupira abandonou o corpo, depois dos sessenta anos, deixou-nos conhecidos a impressão de que subiria incontinenti aos Céus. Vivera arredado do mundo, no conforto precioso que herdara dos pais. Falava pouco, andava menos, agia nunca.

 

Era visto invariavelmente em trajes impecáveis. A gravata ostentava sempre uma pérola de alto preço, pequena orquídea assinalava a lapela e o lenço, admiravelmente dobrado, caía, irrepreensível, do bolso mirim. O rosto denunciava-lhe o apurado culto às madeiras distintas. Buscava, no barbeiro cuidadoso cada manhã, renovada expressão juvenil. Os cabelos bem postos, embora escassos, cobriam-lhe o crânio com o esmero possível.

 

Dizia-se cristão e, realmente, se vivia isolado, não fazia mal sequer a uma formiga. Assegurava, porém, o pavor que o possuía, ante os religiosos de todos os matizes. Detestava os padrões católicos, criticava as organizações protestantes e categorizava os espiritistas no rol dos loucos. Aceitava Jesus a seu modo, não segundo o próprio Jesus. 

 

As facilidades econômicas transitórias adiavam-lhe as lições benfeitoras do concurso fraterno, no campo da vida.

 

Estudava, estudava, estudava…

 

E cada vez mais se convencia de que as melhores diretrizes eram as dele mesmo. Afastamento individual para evitar complicações e desgostos. Admitia, sem rebuços, que assim efetuaria preparação adequada para a existência depois do sepulcro. Em vista disso, a desencarnação de homem tão cauteloso em preservar-se, passaria por viagem sem escalas com o destino à Corte Celeste.

 

Dava aos familiares dinheiro suficiente para aventuras e fantasias, a fim de não ser incomodado por eles; distribuía esmolas vultuosas, para que os problemas de caridade não lhe visitassem o lar; afastava-se do mundo para não pecar. Não seria Joaquim – perguntavam amigos íntimos – o tipo religioso perfeito? Distante de todas as complicações da experiência humana, pela força da fortuna sólida que herdara dos parentes, seria impossível que não conquistasse o paraíso.

 

Contudo, a responsabilidade que o defrontava agora não correspondia à expectativa geral.

 

Sucupira, desencarnado, ingressava numa esfera de ação, dentro da qual parecia não ser percebido pelos grandes servidores celestiais. Via-os em movimentação brilhante, nos campos e nas cidades. Segredavam ordens divinas aos ouvidos de todas as pessoas em serviços dignos. Chegara a ver um anjo singularmente abraçado à velha cozinheira analfabeta.

 

Em se aproximando, todavia, dos Mensageiros do Céu, não era por eles atendido.

 

Conseguia andar, ver, ouvir, pensar. No entanto – desventurado Joaquim! – as mãos e os braços mantinham-se inertes. Semelhavam-se a antenas de mármore, irremediavelmente ligadas ao corpo espiritual. Se intentava matar a sede ou a fome, obrigava-se a cair de bruços porque não dispunha de mãos amigas que o ajudassem.

 

Muito tempo suportara semelhante infortúnio, multiplicando apelos e lágrimas, quando foi conduzido por entidade caridosa a pequeno tribunal de socorro, que funcionava de tempos em tempos, nas regiões inferiores onde vivia compungido.

 

O benfeitor que desempenhava ali funções de juiz, reunida a assembléia de Espíritos penitentes, declarou não contar com muito tempo, em face das obrigações que o prendiam nos círculos mais altos e que viera até ali somente para liquidar casos mais dolorosos e urgentes.

 

Devotados companheiros do bem selecionavam a meia dúzia de sofredores que poderiam ser ouvidos, dentre os quais, por último, figurou Sucupira, a exibir os braços petrificados.

 

Chorou, rogou, lamuriou-se. Quando pareceu disposto a fazer o relatório geral e circunstanciado da existência finda, o julgador obtemperou:

 

  • Não, meu amigo, não trate de sua biografia. O tempo é curto. Vamos ao que interessa.

 

Examinou-o detidamente e observou, passados alguns instantes:

 

  • Sua maravilhosa acuidade mental demonstra que estudou muitíssimo.

 

Fez pequeno intervalo e entrou a argüir:

 

  • Joaquim, você era casado?

 

 

  • Zelava a residência?

 

  • Minha mulher cuida de tudo.

 

  • Foi pai?

 

 

  • Cuidava dos filhos em pequeninos?

 

  • Tínhamos suficiente número de criadas e amas.

 

  • E quando jovens?

 

  • Eram naturalmente entregues aos professores.

 

  • Exerceu alguma profissão útil?
  • Não tinha necessidade de trabalhar para ganhar o pão.

 

  • Nunca sofreu dor de cabeça pelos amigos?

 

  • Sempre fugi, receoso, das amizades. Não queria prejudicar, nem ser prejudicado.

 

O julgador interrompeu-se, refletiu longamente e prosseguiu:

 

  • Você adotou alguma religião?

 

  • Sim, eu era cristão – esclareceu Sucupira.

 

  • Ajudava os católicos?

 

  • Não. Detestava os sacerdotes.

 

  • Cooperava com as Igrejas reformadas?

 

  • De modo algum. São excessivamente intolerantes.

 

  • Acompanhava os espíritas?

 

  • Não. Temia-lhes presença.

 

  • Amparou doentes, em nome de Cristo?

 

  • A terra tem numerosos enfermeiros.

 

  • Auxiliou criancinhas abandonadas?

 

  • Há creches por toda parte.

 

  • Escreveu alguma página consoladora?

 

  • Para quê? O mundo está cheio de livros e escritores.

 

  • Utilizava o martelo ou o pincel?

 

 

  • Socorreu animais desprotegidos?

 

  • Não.

 

  • Agradava-lhe cultivar a terra?

 

 

  • Plantou árvores benfeitoras?
  • Também não.

 

  • Dedicou-se ao serviço de condução das águas, protegendo paisagens empobrecidas?

 

Sucupira fez um gesto de desdém e informou:

 

  • Jamais pensei nisto.

 

O instrutor indagou-lhe sobre todas as atividades dignas conhecidas no Planeta. Ao fim do interrogatório, opinou sem delongas:

 

  • Seu caso explica-se: você tem as mãos enferrujadas.

 

Ante à careta do interlocutor amargurado, esclareceu:

 

  • É o talento não usado, meu amigo. Seu remédio é regressar à lição. Repita o curso terrestre.

 

Joaquim, confundido, desejava mais amplas elucidações.

 

O juiz, porém, sem tempo de ouvi-lo, entregou-o aos cuidados de outro companheiro.

 

Rogério, carioca desencarnado, tipo 1945, recebeu-o de semblante amável e feliz, após escutar-lhe compridas lamentações, convidou, pacientemente:

 

  • Vamos, Sucupira. Você entrará na fila em breves dias.

 

  • Fila? – interrogou o infeliz, boquiaberto.

 

  • Sim – acrescentou o alegre ajudante -, na fila da reencarnação.

 

E, puxando o paralítico pelos ombros, concluía, sorrindo:

 

  • O que você precisa, Joaquim é de movimentação…

 

Livro: “Luz Acima”
Psicografia: Francisco Cândido Xavier
Pelo Espírito: Irmão X
Capítulo: 02


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