Publicado por: . | 11 novembro, 2020

Provas e Expiações – Segundo Allan Kardec

Caríssimos amigos, paz e alegria!

Temos acompanhado nas redes sociais, entusiastas debatendo a cerca do livre arbítrio, progresso do espírito, e o significado das provas e expiações segundo o Espiritismo.

Na busca pelo conhecimento, o pensamento de Kardec nunca foi tão atual, no sentido de esclarecer os temas debatidos, verdadeiro desafios para todos os estudiosos atentos.

Compartilhamos com os nossos amigos web, uma matéria da Revista Espírita de 1863, para facilitar ainda mais o entendimento a cerca dos mecanismos das leis da alma.

Ao nosso Mestre Allan Kardec, nosso muito obrigado.

Questões e Problemas
SOBRE A EXPIAÇÃO E A PROVA
Moulins, 8 de julho de 1863
Senhor e venerado mestre, Venho submeter à vossa apreciação uma questão que foi discutida em nosso pequeno grupo e não pudemos resolver por nossas próprias luzes; os próprios Espíritos que consultamos não responderam muito categoricamente para nos tirar da dúvida.
Redigi uma pequena nota, que tomo a liberdade de vos remeter, na qual reuni os motivos de minha opinião pessoal, que difere da de vários colegas.

A opinião destes últimos é que a expiação ocorre mesmo durante a encarnação, apoiando-se no fato de que tal expressão foi empregada em muitas comunicações e, notadamente, em O Livro dos Espíritos.
Apelo, pois, à vossa bondade, no sentido de dardes a vossa opinião sobre esta questão. Para nós vossa decisão será lei e cada um de nós sacrificará, com prazer, a sua maneira de ver, a fim de colocar-se sob a bandeira que plantastes e sustentais de maneira tão firme e tão sábia.
Recebei, senhor e caro mestre, etc. T. T.

Notas:

“Várias comunicações, dadas por Espíritos diferentes, qualificam indistintamente de expiações ou de provas os males e as tribulações que formam o quinhão de cada um de nós, durante a encarnação na Terra. Resulta de tal aplicação que duas palavras, muito diversas em sua significação, teriam a mesma ideia, causando uma certa confusão, sem dúvida pouco importante para os Espíritos desmaterializados, mas que, entre os encarnados, dá lugar a discussões que seria bom fazer cessar, por meio de uma definição clara e precisa e por explicações fornecidas pelos Espíritos superiores, as quais fixariam, de maneira irrevogável, este ponto da doutrina.

“Tomando primeiramente essas duas palavras em seu sentido absoluto, parece que expiação seria o castigo, a pena imposta para o resgate de uma falta, com perfeito conhecimento, por parte do culpado punido, da causa desse castigo, isto é, da falta a expiar. Compreende-se que, neste e sentido, a expiação é sempre imposta por Deus.

“A prova não implica nenhuma idéia de reparação; pode ser voluntária ou imposta, mas não é a conseqüência rigorosa e imediata das faltas cometidas.

“A prova é um meio de constatar o estado de uma coisa, para reconhecer se é de boa qualidade. Assim, submete-se a uma prova um cordame, uma ponte, uma peça de artilharia, não por causa de seu estado anterior, mas para se certificar se estão adequadas ao serviço para o qual se destinam.

“Do mesmo modo e por extensão, chamaram de provas da vida ao conjunto de meios físicos ou morais que revelam a existência ou a ausência de qualidades da alma, que estabelecem sua perfeição ou os progressos por ela feitos para essa perfeição final.

“Parece, pois, lógico admitir que a expiação propriamente dita, no sentido absoluto do termo, ocorra na vida espiritual, após a desencarnação ou morte corporal; que possa ser mais ou menos longa, mais ou menos penosa, conforme a gravidade das faltas; mas que é completa no outro mundo e termina sempre por um ardente desejo de obter uma nova encarnação,
durante a qual as provas escolhidas ou impostas deverão ensejar à
alma o progresso para a perfeição, que as suas faltas anteriores lhe
impediram fossem realizadas. Assim, pois, não conviria admitir que haja expiação na Terra, nem mesmo que possa existir excepcionalmente, porque seria preciso admitir, também, o conhecimento das faltas punidas.
Ora, esse conhecimento só existe na vida de além-túmulo. A expiação, sem tal conhecimento, seria uma barbárie inútil e não se conciliaria nem com a justiça, nem com a bondade de Deus.

“Durante a encarnação não se pode conceber senão provas, porquanto, sejam quais forem os males e as tribulações da Terra, é impossível considerá-los como podendo constituir uma expiação suficiente para faltas de qualquer gravidade. É possível imaginar que um culpado, entregue à justiça dos homens, estaria bem punido se o condenassem a viver como a mais infeliz das criaturas? Não exageremos, pois, a importância dos males deste mundo para nos concedermos o mérito de os haver suportado. A
prova consiste mais na maneira pela qual os males foram suportados
do que na sua intensidade que, como a felicidade terrena, é sempre
relativa para cada indivíduo.

“Os caracteres distintivos da expiação e da prova são que a primeira é sempre imposta e sua causa deve ser conhecida por aquele que a sofre, enquanto a segunda pode ser voluntária, isto é, escolhida pelo Espírito, ou mesmo imposta por Deus, em falta de escolha. Além disso, ela pode ser concebida perfeitamente sem causa conhecida, visto não ser necessariamente a conseqüência de faltas passadas.

“Numa palavra: a expiação cobre o passado; a prova abre o futuro.

“O número de julho da Revista Espírita contém um artigo intitulado: Expiação terrena, que pareceria contrário à opinião emitida acima. Contudo, lendo-o atentamente, ver-se-á que a verdadeira expiação se dá na vida espírita e que a posição ocupada por Max na sua última encarnação realmente não é senão o gênero de provas que ele escolheu ou que lhe foram impostas, e das quais saiu vitorioso; mas que, durante toda essa encarnação, ignorando sua posição anterior, em nada poderia aproveitar uma expiação sem objetivo.

“Talvez esta seja mais uma questão de palavras que de princípios. Com efeito, já foi dito muitas vezes: ‘Não vos prendais às palavras; vede o fundo do pensamento.’ Em todo o caso, para nós que nos entendemos por meio de palavras, convém estarmos bem fixados no sentido que a elas ligamos.”

Com a Palavra o Editor – Allan Kardec

Resposta – A distinção estabelecida pelo autor da nota acima, entre o caráter da expiação e o das provas é perfeitamente justa. Entretanto, não poderíamos partilhar de sua opinião no que concerne à aplicação desta teoria à situação do homem na Terra.
A expiação implica necessariamente a ideia de um castigo mais ou menos penoso, resultado de uma falta cometida; a prova implica sempre a de uma inferioridade real ou presumida, porquanto, aquele que chegou ao ponto culminante a que aspira, não mais necessita de provas. Em certos casos, a prova se confunde com a expiação, isto é, a expiação pode servir de prova, e
reciprocamente. O candidato que se apresenta para receber uma graduação, passa por uma prova. Se falhar, terá de recomeçar um trabalho penoso; esse novo trabalho é a punição da negligência que apresentou no primeiro; a segunda prova torna-se, assim, uma expiação. Para o condenado a quem se faz esperar um abrandamento ou uma comutação, se bem se conduzir, a pena é, ao mesmo tempo, uma expiação por sua falta e uma prova para sua sorte futura. Se, à sua saída da prisão, não estiver melhor, a prova é nula e um novo castigo desencadeará uma nova prova.
Considerando-se, agora, o homem na Terra, vemos que ele aí suporta males de toda a sorte, muitas vezes cruéis. Esses males têm uma causa. Ora, a menos que os atribuamos ao capricho do Criador, somos forçados a admitir que a causa esteja em nós mesmos, e que as misérias que experimentamos não podem ser o resultado de nossas virtudes; portanto, têm sua fonte nas nossas imperfeições. Se um Espírito encarnar-se na Terra em meio à fortuna, honras e todos os prazeres materiais, poder-se-á dizer que sofre a prova do arrastamento; para o que cai na desgraça por sua má conduta ou imprevidência, é a expiação de suas faltas atuais e pode dizer-se que é punido por onde pecou. Mas que dizer daquele que, desde o nascimento, está em luta com as necessidades e as privações, que arrasta uma existência miserável e sem esperança de melhora, que sucumbe ao peso de enfermidades congênitas, sem nada ter feito, ostensivamente, para merecer tal sorte? Quer seja uma prova, ou uma expiação, a posição não é menos penosa e não seria mais justa do ponto de vista do nosso correspondente, porquanto, se o homem não se lembra da falta, também não se lembra de haver escolhido a prova. Tem-se, assim, de buscar alhures a solução da questão.
Como todo efeito tem uma causa, as misérias humanas são efeitos que devem ter uma causa; se esta não estiver na vida atual, deve estar numa vida anterior. Além disso, admitindo a justiça de Deus, tais efeitos devem ter uma relação mais ou menos íntima com os atos precedentes, dos quais são, ao mesmo tempo, castigo para o passado e prova para o futuro. São expiações no sentido de que são conseqüência de uma falta, e provas em relação ao proveito que delas se retira. Diz-nos a razão que Deus não pode ferir um inocente. Se, pois, formos feridos, é que não somos inocentes: o mal que sentimos é o castigo, a maneira por que o suportamos é a prova.
Mas acontece, muitas vezes, que a falta não se acha nesta vida. Então se acusa a justiça de Deus, nega-se a sua bondade, duvida-se mesmo de sua existência. Aí, precisamente, está a prova mais escabrosa: a dúvida sobre a divindade. Quem quer que admita um Deus soberanamente justo e bom deve dizer que ele não pode agir senão com sabedoria, mesmo naquilo que não compreendemos sofremos uma pena, é porque o merecemos; é, pois, uma expiação. O Espiritismo, pela grande lei da pluralidade das existências, levanta completamente o véu sobre o que esta questão deixava no escuro. Ele nos ensina que se a falta não foi cometida nesta vida, o foi numa outra e, deste modo, que a justiça de Deus segue o seu curso, punindo-nos por onde havíamos pecado.
A seguir vem a grave questão do esquecimento que, segundo o nosso correspondente, tira aos males da vida o caráter de expiação. É um erro. Dai-lhe o nome que quiserdes: jamais fareis que não sejam a conseqüência de uma falta. Se o ignorais, o Espiritismo vo-lo ensina. Quanto ao esquecimento das faltas em si, não tem as conseqüências que lhe atribuis. Temos demonstrado alhures que a lembrança precisa dessas faltas teria inconvenientes extremamente graves, uma vez que nos perturbaria, nos humilharia aos nossos próprios olhos e aos do próximo; trariam perturbação nas relações sociais e, por isto mesmo, entravaria o nosso livre arbítrio.
Por outro lado, o esquecimento não é tão absoluto quanto se supõe; ele só se dá na vida exterior de relação, no interesse da própria Humanidade; mas a vida espiritual não sofre solução de continuidade. Quer na erraticidade, quer nos momentos de emancipação, o Espírito se lembra perfeitamente e essa lembrança lhe deixa uma intuição que se traduz pela voz da consciência, que o adverte do que deve ou não deve fazer. Se não a escuta, é, pois, culpado. Além disso, o Espiritismo dá ao homem um meio de
remontar ao seu passado, se não aos atos precisos, pelo menos aos caracteres gerais desses atos, que ficaram mais ou menos desbotados na vida atual. Das tribulações que suporta, das expiações e provas deve concluir que foi culpado; da natureza dessas tribulações, ajudado pelo estudo de suas tendências instintivas e apoiando-se no princípio de que a mais justa punição é a conseqüência da falta, ele pode deduzir seu passado moral; suas tendências más lhe ensinam o que resta de imperfeito a corrigir em si. A vida atual é para ele um novo ponto de partida; aí chega rico ou pobre de boas qualidades; basta-lhe, pois, estudar-se a si mesmo
para ver o que lhe falta e dizer: “Se sou punido, é porque pequei”, e a própria punição lhe dirá o que fez. Citemos uma comparação: Suponhamos um homem condenado a tantos anos de trabalhos forçados, sofrendo um castigo especial mais ou menos rigoroso, de acordo com a sua falta; suponhamos, ainda, que ao entrar na cadeia perca a lembrança dos atos que para lá o conduziram. Poderá dizer: “Se estou na prisão, é que sou culpado, porquanto aqui não se põe gente virtuosa. Tratemos, pois, de ficar
bom, para não voltarmos quando daqui sairmos.” Quer ele saber o que fez? Estudando a lei penal, saberá quais os crimes que para ali conduzem, porque ninguém é posto a ferros por uma leviandade.
Da duração e da severidade da pena, concluirá o gênero dos que deve ter cometido. Para ter uma idéia mais exata, terá apenas de estudar aqueles para os quais irá sentir-se instintivamente arrastado.
Saberá, então, o que deve evitar daí em diante para conservar a liberdade, e a isso será ainda estimulado pelas exortações dos homens de bem, encarregados de o instruir e o dirigir no bom caminho. Se não o aproveitar, sofrerá as conseqüências. Tal a situação do homem na Terra, onde, tanto quanto o grilheta, não pode ter sido posto por suas perfeições, considerando-se que é infeliz e obrigado a trabalhar. Deus lhe multiplica os ensinamentos de acordo com o seu adiantamento; adverte-o incessantemente e chega mesmo a feri-lo, para o despertar de seu torpor, e aquele que persiste no endurecimento não pode desculpar-se com sua
ignorância.
Em resumo, se certas situações da vida humana têm, mais particularmente, o caráter das provas, outras têm, de modo incontestável, o do castigo, e todo castigo pode servir de prova.
É um erro pensar que o caráter essencial da expiação seja o de ser imposta. Vemos diariamente na vida expiações voluntárias, sem falar dos monges que se maceram e se fustigam com a disciplina e o cilício. Nada há, pois, de irracional em admitir que um Espírito, na erraticidade, escolha ou solicite uma existência terrena que o leve a reparar seus erros passados. Se tal existência lhe tivesse sido imposta, não teria sido menos justa, apesar da ausência momentânea da lembrança, pelos motivos acima desenvolvidos. As misérias da Terra são, pois, expiação, por seu lado efetivo e material, e provas, por suas conseqüências morais. Seja qual for o nome que se lhes dê, o resultado deve ser o mesmo: o melhoramento. Em presença de um objetivo tão importante, seria pueril fazer de um jogo de palavras uma questão de princípio. Isto provaria que se dá mais importância às palavras que à coisa.

Temos prazer de responder às perguntas sérias e elucidá-las, quando possível. A discussão é tanto mais útil com pessoas de boa-fé, que estudaram e querem aprofundar as coisas, pois é trabalhar para o progresso da ciência, quanto ociosa com os que julgam sem conhecer e querem saber sem se darem ao trabalho de aprender.

(grifos nossos)

Setembro 1868 – Allan Kardec


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