Publicado por: . | 12 novembro, 2021

NO CREDIÁRIO DA VIDA – EVANGELHO DA MANHÃ

GÊNESE NO LAR

Fraternidade de Estudos Allan Kardec está convidando você para acessar

TV GÊNESE

🙋⌚ 📽️ 🎙️ 📲 Hora 7:10 – 12 de Novembro 2021_Sexta-feira

😘Tópico: GÊNESE NO LAR N461                                                                                                                        

  📚 📜 – TEMA: NO CREDIÁRIO DA VIDA

Fonte:

Alma e Coração –  Emmanuel- F C Xavier

Livro dos Espiritos – Questão 677 – Allan Kardec

O Problema do Ser – XVIII – Léon Denis

👉 Facilitador: Carlos Alberto Braga Costa

👁️                                                                 

👇🖥️📺📡 

NO CREDIÁRIO DA VIDA


Emmanuel


Deixa que a compaixão te aclare os olhos e lubrifique os ouvidos, a fim de que
possas ver e escutar em louvor do bem.
Quantas vezes geramos complicações e agravamos problemas, unicamente pelo
fato de exigir dos outros, aquilo de santo ou de heróico que ainda não conseguimos
fazer!
À frente das incompreensões ou perturbações do cotidiano, procuremos reagir
como estimaríamos que os demais reagissem, se as dificuldades fossem nossas.
A Terra está repleta dos que censuram e acusam.
Amparemo-nos mutuamente.


Às vezes, pronuncias, palavras menos felizes, nas horas de irritação ou
desanimo, que apreciarias reaver a fim de inutilizá-las, se isso fosse possível, e
agradeces a bondade do ouvinte que se dispõe a atirá-las no cesto do esquecimento. Por
que não agir de modo análogo, quando registras o comentário de ordem negativa,
partido de alguém, no clima do desespero?
Nos atos injustos, nas decisões impensadas ou nos erros que perpetramos,
somos gratos a misericórdia daqueles que nos acolhem com brandura e entendimento,
extinguindo no silêncio os resultados de nossas falhas involuntárias. Como não esposar
norma idêntica, quando algum de nossos irmãos escorregava na sombra?
Proclamamos a necessidade do progresso da alma, afirmamos o impositivo de
nosso próprio aperfeiçoamento…
Iniciemos esse esforço meritório a favor de nós, reconhecendo que os outros
carregam provações e fraquezas semelhantes às nossas, quando não sejam problemas e
obstáculos muito mais aflitivos.
Admiremos nossos companheiros quando se apliquem ao bem ou quando se
harmonizem com o bem: entretanto, sempre que resvalem no qual, busquemos tratá-los
na base do amor que declaramos cultivar com Jesus, de vez que todo investimento de
tolerância que fizemos hoje, a benefício do próximo, no crediário da vida, ser-nos-á
amanhã precioso depósito que poderemos sacar no socorro àqueles a quem mais
amamos, ou mesmo no auxílio a nós.

Alma e Coração –  Emmanuel- F C Xavier

XVIII
Justiça e responsabilidade – O problema do mal


A lei dos renascimentos, dissemos, rege a vida universal.
Com alguma atenção, poderíamos ler em toda a Natureza, como
num livro, o mistério da morte e da ressurreição.
As estações sucedem-se no seu ritmo imponente. O inverno é
o sono das coisas; a primavera é o acordar; o dia alterna com a
noite; ao descanso segue-se a atividade; o Espírito ascende às
regiões superiores para tornar a descer e continuar com forças
novas a tarefa interrompida.
As transformações da planta e do animal não são menos
significativas. A planta morre para renascer, cada vez que volta a
seiva; tudo murcha para reflorir. A larva, a crisálida e a borboleta
são outros tantos exemplos que reproduzem, com mais ou menos
fidelidade, as fases alternadas da vida imortal.
Como seria, pois, possível que só o homem ficasse fora do
alcance dessa lei? Quando tudo está ligado por laços numerosos
e fortes, como admitir que nossa vida seja como um ponto
atirado, sem ligação, para os turbilhões do tempo e do espaço?
Nada antes, nada depois! Não. O homem, como todas as coisas,
está sujeito à lei eterna. Tudo o que tem vivido reviverá em
outras formas para evoluir e aperfeiçoar-se. A Natureza não nos
dá a morte senão para dar-nos a vida. Em conseqüência da
renovação periódica das moléculas do nosso corpo, que as
correntes vitais trazem e dispersam, pela assimilação e
desassimilação cotidianas, já habitamos um sem-número de
invólucros diferentes numa única vida. Não é lógico admitir que
continuaremos a habitar outros no futuro?
A sucessão das existências apresenta-se-nos, pois, como uma
obra de capitalização e aperfeiçoamento. Depois de cada vida
terrestre, a alma ceifa e recolhe, em seu corpo fluídico, as
experiências e os frutos da existência decorrida. Todos os seus
progressos refletem-se na forma sutil da qual é inseparável, no
corpo etéreo, lúcido, transparente, que, purificando-se com ela,
se transforma no instrumento maravilhoso, na harpa que vibra a
todos os sopros do Infinito.
Assim, o ser psíquico, em todas as fases de sua ascensão,
encontra-se tal qual a si mesmo se fez. Nenhuma aspiração nobre
é estéril, nenhum sacrifício baldado. E na obra imensa todos são
colaboradores, desde a alma mais obscura até o gênio mais
radioso. Uma cadeia sem fim liga os seres na majestosa unidade
do Cosmo. É uma efusão de luz e amor que, das cumeadas
divinas, jorra e se derrama sobre todos, para regenerá-los e
fecundá-los. Ela reúne todas as almas em comunhão universal e
eterna, em virtude de um princípio que é a mais esplêndida
revelação dos tempos modernos.
*
A alma deve conquistar, um por um, todos os elementos,
todos os atributos de sua grandeza, de seu poder, de sua
felicidade, e para isso precisa do obstáculo, da natureza
resistente, hostil mesmo, da matéria adversa, cujas exigências e
rudes lições provocam seus esforços e formam sua experiência.
Daí, também, nos estádios inferiores da vida, a necessidade das
provações e da dor, a fim de que se inicie sua sensibilidade e ao
mesmo tempo se exerça sua livre escolha e cresçam sua vontade
e sua consciência. É indispensável a luta para tornar possível o
triunfo e fazer surgir o herói. Sem a iniqüidade, a arbitrariedade,
a traição, seria possível sofrer e morrer por amor da justiça?
Cumpre que haja o sofrimento físico e a angústia moral para
que o espírito seja depurado, limpe-se das partículas grosseiras,
para que a débil centelha, que se está elaborando nas
profundezas da inconsciência, se converta em chama pura e
ardente, em consciência radiosa, centro de vontade, energia e
virtude.
Verdadeiramente só se conhecem, saboreiam e apreciam os
bens que se adquirem à própria custa, lentamente, penosamente.
A alma, criada perfeita, como o querem certos pensadores, seria
incapaz de aquilatar e até de compreender sua perfeição, sua
felicidade. Sem termos de comparação, sem permutas possíveis
com seus semelhantes, perfeitos quanto ela, sem objetivo para
sua atividade, seria condenada à inação, à inércia, o que seria o
pior dos estados; porque viver, para o espírito, é agir, é crescer, é
conquistar sempre novos títulos, novos méritos, um lugar cada
vez mais elevado na hierarquia luminosa e infinita. E para
merecê-lo é necessário ter penado, lutado, sofrido. Para gozar da
abundância é preciso ter conhecido as privações. Para apreciar a
claridade dos dias é mister haver atravessado a escuridão das
noites. A dor é a condição da alegria e o preço da virtude, sendo
esta última o bem mais precioso que há no universo.
Construir o próprio “eu”, sua individualidade através de
milhares de vidas, passadas em centenas de mundos e sob a
direção de nossos irmãos mais velhos, de nossos amigos do
espaço, escalar os caminhos do Céu, arrojarmo-nos cada vez
mais para cima, abrir um campo de ação cada vez mais largo,
proporcionado à obra feita ou sonhada, tornarmo-nos um dos
atores do drama divino, um dos agentes de Deus na obra eterna,
trabalhar para o universo, como o universo trabalha para nós, tal
é o segredo do destino!
Assim, a alma sobe de esfera em esfera, de círculos em
círculos, unida aos seres que tem amado; vai, continuando as
suas peregrinações, em procura das perfeições divinas. Chegada
às regiões superiores, está livre da lei dos renascimentos; a
reencarnação deixa de ser para ela obrigação para tornar-se
somente ato de sua vontade, o cumprimento de uma missão, obra
de sacrifício.
Depois que atingiu as alturas supremas, o Espírito diz, às
vezes, de si para si:
“Sou livre; quebrei para sempre as algemas que me
acorrentavam aos mundos materiais. Conquistei a ciência, a
energia, o amor. Mas o que granjeei quero repartir com meus
irmãos, os homens, e para isso irei de novo viver entre eles,
irei oferecer-lhes o que de melhor há em mim, retomarei um
corpo de carne, descerei outra vez para junto daqueles que
penam, que sofrem, que ignoram, para os ajudar, consolar e
esclarecer.”
E, então, temos Lao-Tse, Buda, Sócrates, Cristo, numa
palavra, todas as grandes almas que têm dado sua vida pela
humanidade!
*
Resumamos. Havemos demonstrado, no decurso deste estudo,
a importância da doutrina das reencarnações; vimos nela uma
das bases essenciais em que assenta o Novo Espiritualismo; seu
alcance é imenso. Ela explica a desigualdade das condições
humanas, a variedade infinita das aptidões, das faculdades e dos
caracteres, dissipa os mistérios perturbadores e as contradições
da vida; resolve o problema do mal. É por meio dela que a ordem
sucede à desordem, a luz se faz no seio das trevas, desaparecem
as injustiças, as iniqüidades aparentes da sorte se desvanecem
para ser substituídas pela lei máscula e majestosa da repercussão
dos atos e de suas conseqüências. E essa lei de justiça imanente
que governa os mundos foi inscrita por Deus no âmago das
coisas e na consciência humana.
A doutrina das reencarnações aproxima os homens mais que
qualquer outra crença, ensinando-lhes a comunidade de origens e
fins, mostrando-lhes a solidariedade que os liga a todos no
passado, no presente, no futuro. Diz-lhes que não há, entre eles,
deserdados nem favorecidos, que cada um é filho de suas obras,
senhor de seu destino. Nossos sofrimentos, ocultos ou aparentes,
são conseqüências do passado ou também a escola austera onde
se aprendem as altas virtudes e os grandes deveres.
Percorreremos todos os estádios da via imensa; passaremos
alternadamente por todas as condições sociais para conquistar as
qualidades inerentes a esses meios. Assim, a solidariedade que
nos liga compensa, numa harmonia final, a variedade infinita dos
seres, resultante da desigualdade de seus esforços e também das
necessidades de sua evolução. Com ela, para longe vão a inveja,
o desprezo e o ódio! Os menores de nós talvez já tenham sido
grandes e os maiores tornarão a nascer pequenos, se abusarem de
sua superioridade. A cada um, por sua vez, a alegria como a dor!
Daí a verdadeira confraternidade das almas; sentimo-nos todos
perenemente unidos nos degraus da nossa ascensão coletiva;
aprendemos a ajudar-nos e a sustentar-nos, a estender a mão uns
aos outros!
Através dos ciclos do tempo, todos se aperfeiçoam e se
elevam; os criminosos do passado virão a ser os sábios do futuro.
Chegará a hora em que nossos defeitos serão eliminados, em que
nossos vícios e nossas chagas morais serão curadas. As almas
frívolas tornar-se-ão sisudas, as inteligências obscuras iluminarse-ão.

Todas as forças do mal que em nós vibram ter-se-ão
transformado em forças do bem. Do ser fraco, indiferente,
fechado a todos os grandes pensamentos, sairá, com o perpassar
dos tempos, um Espírito poderoso, que reunirá todos os
conhecimentos, todas as virtudes, e se tornará capaz de realizar
as coisas mais sublimes.
Essa será a obra das existências acumuladas; será sem dúvida
indispensável um grande número delas para operar tal mudança,
para nos expurgar de nossas imperfeições, fazer desaparecer as
asperezas de nossos caracteres, transformar as almas de trevas
em almas de luz! Mas só é poderoso e durável aquilo que teve o
tempo necessário para germinar, sair da sombra, subir para o
céu. A árvore, a floresta, a Natureza, os mundos no-lo dizem em
sua linguagem profunda. Não se perde nenhuma semente,
nenhum esforço é inútil. A planta dá suas flores e seus frutos
somente na estação própria; a vida só desabrocha nas terras do
espaço após imensos períodos geológicos.
Vede os diamantes esplêndidos que fazem mais formosas as
mulheres e faíscam mil cores. Quantas metamorfoses não
tiveram de passar para adquirir essa pureza incomparável, seu
brilho fulgurante? Que lenta incubação no seio da matéria
obscura!
Acontece o mesmo com a entidade humana. Para se purificar
de seus elementos grosseiros e adquirir todo o seu brilho, são
necessários períodos de evolução mais vastos ainda, muitos anos
de aprisionamento na carne.
É nesse trabalho de aperfeiçoamento que aparece a utilidade,
a importância das vidas de provas, das vidas modestas e
despercebidas, das existências de labor e dever para vencer as
paixões ferozes, o orgulho e o egoísmo, para curar as chagas
morais. Desse ponto de vista, o papel dos humildes, dos
pequenos neste mundo, as tarefas desprezadas patenteiam-se em
toda a sua grandeza à nossa vista; compreendemos melhor a
necessidade do regresso à carne para resgate e purificação.
*
Resolvendo o problema do mal, o Novo Espiritualismo
mostra, mais uma vez, sua superioridade sobre as outras
doutrinas.
Para os materialistas evolucionistas, o mal e a dor são
constantes, universais. Em toda parte – dizem Taine, Soury,
Nietzsche e Haeckel – vemos espraiar-se o mal e sempre o mal
há de reinar na humanidade; todavia – acrescentam –, com o
progresso o mal decrescerá; mas será mais doloroso, porque
nossa sensibilidade física e moral irá aumentando e será
necessário sofrermos e chorarmos sem esperança, sem
consolação, por exemplo, no caso de uma catástrofe, irreparável
a seus olhos, como a morte de um ser querido. Por conseguinte,
o mal sobrepujará sempre o bem.
Certas doutrinas religiosas não são muito mais consoladoras.
Segundo o Catolicismo, o mal parece predominar também no
universo e Satanás parece muito mais poderoso do que Deus. O
inferno, segundo a palavra fatídica, povoa-se constantemente de
multidões inumeráveis, ao passo que o paraíso é partilhado de
raros eleitos. Para o crente ortodoxo, a perda, a separação dos
seres que amou, são quase tão definitivas como para o
materialista. Não há nunca para ele certeza completa de tornar a
encontrá-los, de se lhes reunir um dia.
Com o Novo Espiritualismo a questão toma aspecto muito
diferente. O mal é apenas o estado transitório do ser em via de
evolução para o bem; o mal é a medida da inferioridade dos
mundos e dos indivíduos, é também, como vimos, a sanção do
passado. Toda escala comporta graus; nossas vidas terrestres
representam os graus inferiores de nossa ascensão eterna.
Tudo ao redor de nós demonstra a inferioridade do planeta
em que habitamos. Muito inclinado sobre o eixo, sua posição
astronômica é a causa de perturbações freqüentes e de bruscas
mudanças de temperatura: tempestades, inundações, convulsões
sísmicas, calores tórridos, frios rigorosos. A humanidade
terrestre, para subsistir, está condenada a um labor penoso.
Milhões de homens, jungidos ao trabalho, não sabem o que é o
descanso nem o bem-estar. Ora, existem relações íntimas entre a
ordem física dos mundos e o estado moral das sociedades que os
povoam. Os mundos imperfeitos, como a Terra, são reservados,
em geral, às almas ainda em baixo grau de evolução.
Entretanto, nossa estada nesse meio é simplesmente
temporária e subordinada às exigências de nossa educação
psíquica; outros mundos, melhor aquinhoados sob todos os
pontos de vista, nos aguardam. O mal, a dor, o sofrimento,
atributos da vida terrestre, têm forçosa razão de ser; são o
chicote, a espora que nos estimulam e nos fazem andar para
frente.
Sob esse ponto de vista, o mal tem um caráter relativo e
passageiro; é a condição da alma ainda criança que se ensaia
para a vida. Pelo simples fato dos progressos feitos, vai pouco a
pouco diminuindo, desaparece, dissipa-se, à medida que a alma
sobe os degraus que conduzem ao poder, à virtude, à sabedoria!
Então a justiça patenteia-se no universo; deixa de haver
eleitos e réprobos; sofrem todos as conseqüências de seus atos,
mas todos reparam, resgatam e, cedo ou tarde, se regeneram para
evolverem desde os mundos obscuros e materiais até a luz
divina; todas as almas amantes tornam a encontrar-se, reúnem-se
em sua ascensão para cooperarem juntas na grande obra, para
tomarem parte na comunhão universal.
O mal não tem, pois, existência real, não há mal absoluto no
universo, mas em toda parte a realização vagarosa e progressiva
de um ideal superior; em toda parte se exerce a ação de uma
força, de um poder, de uma causa que, conquanto nos deixe
livres, nos atrai e arrasta para um estado melhor. Por toda parte,
a grande lida dos seres trabalhando para desenvolver em si, à
custa de imensos esforços, a sensibilidade, o sentimento, a
vontade, o amor!
*
Insistamos na noção de justiça, que é essencial; porque há
precisão, necessidade imperiosa, para todos, de saber que a
justiça não é uma palavra vã, que há uma sanção para todos os
deveres e compensações para todas as dores. Nenhum sistema
pode satisfazer nossa razão, nossa consciência, se não realizar a
noção de justiça em toda a sua plenitude. Essa noção está
gravada em nós, é a lei da alma e do universo. Por tê-la
desconhecido é que tantas doutrinas se enfraquecem e se
extinguem na presente hora, em redor de nós. Ora, a doutrina das
vidas sucessivas é um resplendor da idéia de justiça; dá-lhe
realce e brilho incomparáveis. Todas as nossas vidas são
solidárias umas com as outras e se encadeiam rigorosamente. As
conseqüências dos nossos atos constituem uma sucessão de
elementos que se ligam uns aos outros pela estreita relação de
causa e efeito; constantemente, em nós mesmos, em nosso ser
interior, como nas condições exteriores de nossa vida, sofremoslhes os resultados inevitáveis. Nossa vontade ativa é uma causa
geradora de efeitos mais ou menos longínquos, bons ou maus,
que recaem sobre nós e formam a trama de nossos destinos.
O Cristianismo, renunciando a este mundo, procrastinava a
felicidade e a justiça para o outro; e se seus ensinamentos
podiam bastar aos simples e aos crentes, tornavam fácil aos
hábeis cépticos dispensar-se da justiça, pretextando que seu reino
não era da Terra; mas com a prova das vidas sucessivas o caso
muda completamente de figura. A justiça deixa de ser transferida
para um domínio quimérico e desconhecido. É aqui mesmo, em
nós e em torno de nós, que ela exerce o seu império. O homem
tem de reparar, no plano físico, o mal que fez no mesmo plano;
torna a descer ao cadinho da vida, ao próprio meio onde se
tornou culpado, para, junto daqueles que enganou, despojou,
espoliou, sofrer as conseqüências do modo pelo qual
anteriormente procedeu.
Com o princípio dos renascimentos, a idéia de justiça definese e verifica-se; a lei moral, a lei do bem se patenteia em toda a
sua harmonia. Esta vida não é mais do que um anel da grande
cadeia das suas existências, eis o que o homem afinal
compreende; tudo o que semeia colherá mais cedo ou mais tarde.
Deixa, portanto, de ser possível desconhecermos as nossas
obrigações e esquivarmo-nos às nossas responsabilidades. Nisso,
como em tudo o mais, o dia seguinte vem a ser o produto da
véspera; por baixo da aparente confusão dos fatos descobrimos
as relações que os ligam. Em vez de estarmos escravizados a um
destino inflexível, cuja causa está fora de si, tornamo-nos
senhores e autores desse destino. Em vez de ser dominado pela
sorte, o homem, muito ao contrário, a domina e cria,
independentemente dela, por sua vontade e seus atos. O ideal de
justiça deixa de ser afastado para um mundo transcendental;
podemos definir-lhe os termos em cada vida humana, renovada
em sua relação com as leis universais, no domínio das causas
reais e tangíveis.
Essa grande luz faz-se precisamente na hora em que as velhas
crenças desabam sob o peso do tempo, em que todos os sistemas
apresentam sinais de próxima ruína, em que os deuses do
passado se cobrem e se afastam, os deuses de nossa infância, os
que os nossos pais adoraram. Há muito tempo o pensamento
humano, ansioso, tateia nas trevas à procura do novo edifício
moral que há de abrigá-lo. E, precisamente, vem agora a doutrina
dos renascimentos oferecer-lhe o ideal necessário a toda a
sociedade em marcha e, ao mesmo tempo, o corretivo
indispensável aos apetites violentos, às ambições desmedidas, à
avidez das riquezas, das posições, das honras: um dique aos
desmandos do sensualismo que ameaça submergir-nos.
Com ela, o homem aprende a suportar, sem amargura e sem
revolta, as existências dolorosas, indispensáveis à sua
purificação; aprende a submeter-se às desigualdades naturais e
passageiras que são o resultado da lei de evolução, a postergar as
divisões fictícias e malsãs, provenientes dos preconceitos de
castas, de religiões ou de raças. Esses preconceitos desvanecemse inteiramente desde que se saiba que todo Espírito, nas suas
vidas ascendentes, tem de passar pelos mais diversos meios.
Graças à noção das vidas sucessivas, as responsabilidades
individuais, ao mesmo tempo em que as das coletividades,
aparecem-nos mais distintas. Há em nossos contemporâneos uma
tendência para atirar o peso das dificuldades presentes sobre os
ombros das gerações futuras. Persuadidos de que não tornarão à
Terra, deixam a nossos sucessores o cuidado de resolverem os
problemas espinhosos da vida política e social.
Com a lei dos destinos, a questão muda logo de face; não
somente o mal que tivermos feito recairá sobre nós e teremos de
pagar as nossas dívidas até o último ceitil, como o estado social
que tivermos contribuído para perpetuar com seus vícios, com as
suas iniqüidades, apanhar-nos-á na sua férrea engrenagem,
quando voltarmos à Terra, e sofreremos por todas as suas
imperfeições. Essa sociedade, à qual teremos pedido muito e
dado pouco, virá a ser outra vez “nossa” sociedade, sociedade
madrasta para seus filhos, egoístas e ingratos.
No decurso de nossas estações terrestres, às vezes como
poderosos, outras como fracos, diretores ou dirigidos, sentiremos
muitas vezes recair sobre nós o peso das injustiças que deixamos
se perpetuassem. E não nos esqueçamos de que as existências
obscuras, as vidas humildes e despercebidas serão em muito
maior número para cada um de nós, ao passo que os homens que
possuírem a abastança, a educação e a instrução representarão a
minoria na totalidade das populações do Globo.
Mas, quando a grande doutrina se tiver tornado a base da
educação humana e a partilha de todos, quando a prova das vidas
sucessivas aparecer a todas as vistas, então os mais instruídos, os
mais refletidos, desenvolvendo em si as intuições do passado,
compreenderão que têm vivido em todos os meios sociais e terão
mais tolerância e benevolência para com os pequenos, sentirão
que há menos maldade e acrimônia do que sofrimento revoltado
na alma dos deserdados. Que partido admirável não podem então
tirar de sua própria experiência, difundindo em torno de si a luz,
a esperança, a consolação!
Então o interesse, o bem pessoal, tornar-se-á o bem de todos.
Cada um se sentirá inclinado a cooperar mais ativamente para o
melhoramento dessa sociedade em cujo seio terá de renascer para
progredir com ela e avançar para o futuro.
*
A hora presente é ainda uma hora de lutas; luta das nações
para a conquista do globo, luta das classes para a conquista do
bem-estar e do poder. Em torno de nós agitam-se forças cegas e
profundas, que ontem não se conheciam e hoje se organizam e
entram em ação. Uma sociedade agoniza; outra nasce. O ideal do
passado vem à Terra. Qual será o de amanhã?
Abriu-se um período de transição. Uma fase diferente de
evolução humana, obscura, cheia, ao mesmo tempo, de
promessas e ameaças, começou. Na alma das gerações que
sobem jazem os germens de novas florescências. Flores do mal
ou flores do bem?
Muitos se alarmam, muitos se espantam. Não duvidamos do
futuro da humanidade, de sua ascensão para a luz, e derramamos
em volta de nós, com coragem e perseverança incansáveis, as
verdades que asseguram o dia de amanhã e fazem as sociedades
fortes e felizes.
Os defeitos de nossa organização social provêm
principalmente de nossos legisladores que, em suas acanhadas
concepções, abrangem somente o horizonte de uma vida
material. Não compreendendo o fim evolutivo da existência e o
encadeamento de nossas vidas terrenas, estabeleceram um estado
de coisas incompatível com os fins reais do homem e da
sociedade.
A conquista do poder pelo maior número não é própria para
ampliar esse ponto de vista. O povo segue o instinto surdo que o
impele. Incapaz de aquilatar o mérito e o valor de seus
representantes, leva muitas vezes ao poder os que desposam suas
paixões e participam de sua cegueira. A educação popular
precisa ser completamente reformada, porque só o homem
ilustrado pode colaborar com inteligência, coragem e consciência
na renovação social.
Nas reivindicações atuais, a noção de direito é objeto de
excessivas especulações, sobreexcitam-se os apetites, exaltam-se
os espíritos. Esquece-se de que o direito é inseparável do dever
e, na verdade, é simplesmente sua resultante. Daí, uma ruptura
de equilíbrio, uma inversão das relações de causa para efeito, isto
é, do dever para o direito na repartição das vantagens sociais, o
que constitui uma causa permanente de divisão e ódio entre os
homens. O indivíduo que encara somente seu interesse próprio e
seu direito pessoal ocupa lugar inferior, ainda, na escala da
evolução.
O direito – como disse Godin, fundador do familistério de
Guise – é feito do dever cumprido. Sendo os serviços prestados à
humanidade a causa, o direito vem a ser o efeito. Numa
sociedade bem organizada, cada cidadão classificar-se-á de
acordo com o seu valor pessoal e o grau de sua evolução, em
proporção com sua cota social.
O indivíduo só deve ocupar a situação merecida; seu direito
está em proporção equivalente à sua capacidade para o bem. Tal
é a regra, tal é a base da ordem universal, e a ordem social,
enquanto não for sua contraprova, sua imagem fiel, será precária
e instável.
Cada membro de uma coletividade deve, por força dessa
regra, em vez de reivindicar direitos fictícios, tornar-se digno
deles, aumentando o próprio valor e sua participação na obra
comum. O ideal social transforma-se, o sentido da harmonia
desenvolve-se, o campo do altruísmo dilata-se; mas, no estado
atual das coisas, no seio de uma sociedade onde fermentam
tantas paixões, onde se agitam tantas forças brutais, no meio de
uma civilização feita de egoísmo e cobiça, de incoerência e má vontade, de sensualidade e sofrimentos, são de temer muitas
convulsões.
As vezes ouve-se o bramido da onda que sobe. O queixume
dos que sofrem transforma-se em brados de cólera. As multidões
contam-se; interesses seculares são ameaçados. Levanta-se,
porém, uma nova fé, iluminada por um raio do Alto e assente em
fatos, em provas sensíveis. Diz a todos: “Sede unidos, porque
sois irmãos, irmãos neste mundo, irmãos na imortalidade.
Trabalhai em comum para tornardes mais suaves as condições da
vida social, mais fácil o desempenho de vossas tarefas futuras.
Trabalhai para aumentar os tesouros de saber, de sabedoria, de
poder, que são a herança da humanidade. A felicidade não está
na luta, na vingança; está na união dos corações e das vontades!”

O Problema do Ser – XVIII – Léon Denis


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